Archive for Janeiro, 2008

Flower Power

bike_flor.jpgImagem: Jardinagem Libertária

Como retomar as ruas e praças? Relato da bicicletagem libertária


Add comment Janeiro 31, 2008

1.000.000 de iraquianos mortos

bush.jpg

Mais um número para análise da sanguinária estratégia norte-americana de invasão ao Iraque. O exército bushiano considerou que, em média, mais de um indivíduo de cada família iraquiana era um perigoso terrorista e passou-lhe fogo. Bush está de saída, sai como se nada tivesse acontecido e deixa uma montanha de cadáveres para a humanidade recolher.

Uma empresa inglesa de pesquisa de opinião conduziu 2.414 entrevistas pessoais nas zonas urbanas e rurais do Iraque, abrangindo 15 de suas 18 províncias. Perguntou às pessoas quantas de seu núcleo familiar, se alguma, morreram por conta da invasão americana ocorrida em 2003.

A empresa apresenta o número de 1 milhão de mortos, com margem de erro de 1,7%, baseando-se para expansão no censo iraquiano de 1997 que relata 4,05 milhões de famílias no país.

A informação é da Reuters. Imagem da Brave New Films

Outra referência:
Iraq Body Count

Relacionados:
Iraq Conflict Has Killed A Million Iraqis: Survey, artigo, New York Times (em inglês)
Press Release e metodologia da pesquisa, Opinion Research Business (em inglês)


Add comment Janeiro 31, 2008

Mulheres anônimas

mulheres_bergamo_01.jpg

Trecho da análise do Fósforo sobre a foto da reportagem “Entre rosas e espinhos” de Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo do dia 20/01 :

(…) Fui à legenda, claro. A verdade estava lá inscrita, pétrea: “Fulana de Tal, vestindo Fórum Tufi Duek, na casa do estilista.” Só.

Apenas uma dessas mulheres existe, para o jornal. A outra pode ser confundida com um vaso ou um animal doméstico. Seu sorriso é uma miragem, seu corpo é uma abstração escondida sob o uniforme masculinizado. Talvez cozinhe melhor, cure melhor, console melhor, faça amor ou cuide dos filhos melhor que sua vizinha, mas isso não conta. Não merece ter o nome divulgado.

Aliás, não é gente. Não pode ter nome.

Fonte: Duas mulheres, Fósforo. (Via: Liberal, Libertário, Libertino)

Não há o que acrescentar, mas vendo as outras fotos da matéria e considerando o estilo da coluna, parece que a mulher sem nome serviu de decoração. A intenção da fotógrafa não parece ter sido apenas a de “integrar dois mundos, mostrar quanto as mulheres podem ter em comum” ou estava ali somente como um vaso, como comentou o Fósforo; tampouco tentaram cortá-la da foto, só permanecendo nela para a página não ficar fora de diagramação.

Foi decoração mesmo. Elemento de contraste. Como uma coluna de mármore ao lado do erudito, uma estante de livros atrás do intelectual, um copo à mesa do músico. A funcionária está ali para ressaltar o objeto central da fotografia, a mulher de vermelho. O tema da matéria era o desfile de fulano na casa do fulano e a funcionária compunha a foto que remeteria ao espírito da matéria, de que se estava na casa gigante de fulano para um desfile e que isso é inusitado, interessante, curioso, cool…

O estilo da colunista social e de seus ajudantes é cheio de artimanhas, apresentando o luxo com um suposto tom de crítica e espanto. Ao descrever os bastidores como se fosse uma investigadora desconhecida de seus objetos disfarça a promoção de certas figuras e a abertura de caça a outras. Ao adotar uma redação estilo diário de campo de antropóloga faz parecer que não faz parte da legião de jornalistas que busca no tema chiques e famosos a garantia das vendas de seus jornais.

As ações e opiniões das ricas, das importantes, das poderosas produzem notícias para os jornais. O jornal produz matérias para o consumo exclusivo da classe média, qual o melhor carro, a melhor escola de pós-graduação, a ginástica da moda, o hospital moderno. E as pobres, as vencidas, as esquecidas, as “comuns” que estão vivas, comem, dormem, consomem, brigam? Que são maioria, que têm nome? São apagadas, não passam de um bando de sem-legendas.


Add comment Janeiro 29, 2008

A coleta seletiva de que a prefeitura fala e a coleta de quem faz

carroca_mundano.jpg
Arte e foto: Mundano. Eu reciclo e você?. Todos os direitos reservados.

“São Paulo nos surpreende a cada dia”, nesta semana de aniversário da cidade, você provavelmente ouviu frase parecida. Bem verdade, pena que na maioria dos casos a surpresa é um atropelamento, camelôs correndo da polícia, guarda metropolitana espancando morador de rua…

Uma das surpresas dessa cidade que a todos acolhe baixou na manhã do dia 22/01 sobre o bairro do Glicério. Os catadores de materiais recicláveis que trabalham sob o viaduto do Glicério receberam um “corre que vamos levar tudo” de presente. A prefeitura queria limpar o depósito porque ele estava muito sujo, para isso levou sua melhor equipe de faxineiros, a Guarda Municipal Metropolitana. Não usaram vassouras, mas diante da resistência dos catadores organizados usou spray de pimenta para higienizar o direito ao trabalho.

Uma coisa é varejista milionário vender na marca “Compre Bem” enlatados para pobres com preços diferentes dos da gôndola e na marca “Pão de Açúcar” oferecer laranja descasca embaladas em isopor e carregadas em sacolinha plástica com mensagem para “um mundo melhor”. Ele joga o jogo, faz sua publicidade, se mente é coisa que o governo deveria conferir. Outra coisa muito diferente é o poder público perseguir o trabalhador que faz o trabalho que ela não faz ao mesmo tempo que estimula a reciclagem com frases tais “Programa de Coleta Seletiva da Prefeitura: Participe“.

Em dia de lançamento de projeto com coquetel para comemorar o convênio com associação de empresários todos são só amor à reciclagem. Mas a reciclagem deles é diferente, não tem pessoas coletando material descartado por toda a cidade, vendendo o material no mercado e comprando seus mantimentos.

Para a prefeitura trabalhar dentro das regras do capitalismo não pode, é sujo. Ela trata logo de desmontar um depósito de material aqui, chamar papelão de lixo contaminado ali, proibir carroças acolá, chamar carroceiro de animal logo adiante e assim segue seu argumento publicitário para dar a uma empresa amiga o lucro da coleta seletiva da cidade.

Os trabalhadores viram funcionários com salário mínimo, vale coxinha e cursinho de alfabetização para garantir a responsabilidade social; assim fica tudo dentro das regras do jogo do capitalismo brasileiro, garante-se o represamento do dinheiro e apaga a fúria da classe média contra os carroceiros que atrapalham o trânsito e enfeiam a paisagem de automóveis pretos e prateados.

Vozes e poderes de resistência dentro dos governos sempre haverá enquanto os cargos públicos não forem tomados por parentes e lobbistas. Quando um coordenador de ação social de subprefeitura diz que “a medida da subprefeitura é fazer uma grande limpeza, depois desta grande limpeza eles podem voltar a trabalhar normalmente aí” e leva a polícia junto vê-se que chegamos num ponto em que a única ação social é limpar da cidade os indesejados.

VÍDEO: Catadores Surpreendidos com Limpeza da Prefeitura, Rede Rua

Relacionados:
Catadores Surpreendidos com Limpeza da subprefeitura da Sé, notícia, Rede Rua
Operação Limpa no Bairro da Luz, Capitulo VII - Parte 2 do dossiê Violação dos Direitos Humanos no centro de São Paulo, Forúm Centro Vivo


Add comment Janeiro 28, 2008

Reforma das calçadas da Teodoro Sampaio

teodoro_cadeirante.jpg
Rua Teodoro Sampaio, a 50 metros da estação Clínicas do metrô, calçadas detonadas

Em setembro do ano passado foi iniciada a reforma das calçadas da Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo. A rua também foi uma das escolhidas como rua-modelo do Projeto Cidade Limpa.

A obra duraria quatro meses, segundo a prefeitura, ou seja, já deveria estar pronta. Voltamos de férias e a coisa está quase na mesma. Ver a empreiteira trabalhando no local não é muito fácil, vai ver os 750 mil reais de investimento anunciados são insuficientes para uma jornada de oito horas diárias, cumprimento de prazo e essas preocupações dos demais mortais… Empreiteiras têm um jeito seu de ser…

A reforma acontece só no trecho entre as avenidas Faria Lima e Henrique Schaumann. O restante da rua, caminho para a estação Clínicas do metrô, ficou de fora. A estação fica na Av. Dr. Arnaldo, que também teve suas calçadas adaptadas às normas de acessibilidade.

É uma lógica difícil de entender. O cadeirante desce na estação Clínicas e quer ir, por si só, até o trecho comercial da Teodoro, porque sabe que poderá passear e fazer suas compras numa rua com calçadas adaptadas. Não consegue. No caminho existem quarteirões com calçadas detonadas. De ônibus também não dá certo, pois as ruas transversais que dão acesso à Teodoro não foram reformadas.

A prioridade deveria construir “caminhos” adaptados, formar uma seqüência minimamente lógica que permita que a pessoa com dificuldade de locomoção possa ir autonomamente de um lugar de embarque e desembarque ao seu destino final. As pessoas precisam ir do metrô ao centro comercial, do hospital ao ponto de ônibus, da loja ao banco, do banco para a estação e da estação para casa.

A maioria das novas calçadas adaptadas garantem a circulação num determinado trecho. Se vai do banco à loja, da padaria ao correio, mas como chegar até este trecho? Como não é de pára-quedas, só de carro mesmo. E como uma minoria possui carro e, muitas vezes, se depende de um acompanhante, um motorista, por exemplo, calçadas descontinuadas não são ideais, pois não trazem a independência desejada pelas pessoas com necessidades especiais de locomoção.

O piso escolhido para a faixa central da calçada da Teodoro é diferente dos de outras ruas, o que achamos bom, uma vez que padronização não precisa significar uniformização chata. A questão é que notamos que não havia nas rampas de acesso o piso tátil - uma faixa amarela com bolinhas em alto-relevo que permite ao portador de deficiência visual “sentir” que a calçada começa/acaba ali.

oscarfreire.jpg
Exemplo de sinalização em rampa. Rua Oscar Freire, Jardins, São Paulo

Abaixo, uma das esquinas mais movimentadas de pinheiros, a da Teodoro Sampaio com a Pedroso de Moraes, já reformada e sem a faixa sinalizadora nas rampas:

teodorosampaio_03.jpg teodorosampaio_04.jpg

Meses depois em alguns - alguns - quarteirões inicou-se a retirada das lajotas para a colocação da sinalização diferenciada. Por exemplo, numa mesma esquina, a da Teodoro Sampaio com a Morato Coelho, temos uma rampa pronta e a outra abandonada há mais de um mês:

teodorosampaio_02.jpg teodorosampaio_01.jpg

Já estamos acostumados com o fazer para depois desfazer e fazer tudo de novo, então nem vamos comentar. O que importa é que mesmo após o retrabalho, mais uma vez, falta bom senso. Por que um quarteirão é sinalizado e o seguinte não? Qual é a lógica? Você vem andando tem a sinalização, chega na Pedroso de Moraes (com cinco faixas de veículos) e não tem sinalização, depois tem, depois não tem… Que espécie de reforma é essa de diz “Aqui não precisa de sinalização, aqui precisa”? Que decreto [pdf] é esse que na prática diz “Aqui você pode correr o risco de acabar embaixo de um carro, aqui não”? Por que algumas ruas merecem uma excelência de sinalização e outras não?

Em São Paulo a gente acorda com a rua recapeada. Em uma noite a rua está pronta, lisinha. Tudo muito rápido para não atrapalhar o trânsito - claro, só as faixas de pedestres que ficam para depois, para quando sobrar tempo.

Anualmente, são investidos milhões na manutenção de ruas para a rodagem de automóveis. Com as calçadas é bem diferente, quando, finalmente, há um projeto do poder público de reformas das calçadas não há a continuidade de trajeto desejada, a sinalização é “econômica” e louca e as obras se estendem por meses, obrigando os pedestres a se espremerem entre as máquinas e os entulhos durante metade do ano.

Relacionados:
Nova calçada da Dr. Arnaldo, os obstáculos ficaram mais bonitos
Tinha um muro no caminho
As calçadas da Oscar Freire


2 comments Janeiro 17, 2008

As calçadas da Oscar freire

A Oscar Freire é uma rua de comércio de luxo.

Em 2006 ela passou por uma baita reforma com apoio financeiro dos comerciantes, diga-se grandes grifes internacionais e nacionais.

As calçadas foram alargadas, ganharam bancos e sinalização de primeira. O estacionamento de veículos foi remodelado e todos os cabos e fios são agora subterrâneos.

Na ocasião da inauguração da nova rua, o release da prefeitura desrespeitou os operários que ali trabalharam e motivou um protesto. O release dizia:

No lugar dos operários, homens e mulheres bem vestidos e com a aparência favorecida em todos os aspectos, voltam a circular pelas calçadas da rua Oscar Freire.

A obra custou cerca 4,5 milhões de reais. Por que uma rua de baixo movimento popular foi escolhida para receber tal reforma, enquanto ruas próximas de terminais de ônibus, estações de metrô e trem com movimento gigantesco continuavam estreitas e esburacadas foi o questionamento óbvio na ocasião.

Isso foi em 2006. Mas vale deixar registrado aqui algumas imagens para efeito de comparação com outras ruas que foram e estão sendo reformadas na cidade, com investimento muito inferior.

Além do piso tátil com cor e alto-relevo diferenciado, que permite com que o deficiente visual “sinta” que está na rampa limite da calçada; a rua possui uma marcação tátil extra que indica que a esquina está próxima.

oscarfreire_01.jpg

Ruas em frente a estações muitas vezes são tratadas como ruas comuns, a rua Augusta quase esquina com a Av. Paulista (lado centro), a 15 metros da estação Consolação do metrô, por exemplo, possui dezenas de grandes vasos anti-camelô que impedem a circulação de três pessoas lado a lado; na Oscar Freire as calçadas são bem largas para garantir a circulação dos consumidores.

Na cidade onde nem as praças têm bancos, e quando têm são bancos anti-morador de rua, a rua Oscar Freire é cheia deles.

oscarfreire_02.jpg

Além da sinalização do limite calçada-rua, há sinalização da proximidade dos lotes particulares. Todos os acessos a residências, lojas e garagens possuem sinalização tátil.

oscarfreire_03.jpg

Que todas as ruas tenham o mesmo rigor no calçamento e sinalização, de forma que todos possam circular com segurança e prazer, é o nosso desejo.


1 comment Janeiro 17, 2008

Orla publicitária

Para vender carros aos latinos, a Peugeot filma cidades que não existem na América Latina.

Na orla do carro “Live!”, movimentam-se tranqüilamente carrinho de bebê, sorveteiro, bicicleta e praticantes de yoga. Na avenida da orla circula calmamente um único carro - o próprio “Live!”; estacionados estão apenas dois - os mesmos tais. Tem também um solzinho gostoso pré-buraco da camada de ozônio que entra pelo teto solar junto com um ventinho fresco que não deixa o rosto cheio de fuligem.

Ah, tem um telefone viva-voz para você “viver” “ao vivo!”. Na vida real, pelo menos vai servir para você ligar para as pessoas dizendo que vai chegar atrasado, porque está preso no trânsito.


1 comment Janeiro 16, 2008

Os “suspeitos” de sempre e os “jovens” de sempre

Em 1888 os Anais da Câmara dos Deputados registravam:

As classes pobres e viciosas sempre foram e hão de ser sempre a mais abundante casa de toda sorte de malfeitorias: são elas que se designam mais propriamente sob o título de “classes perigosas”; pois quando mesmo o vício não é acompanhado pelo crime, só o fato de aliar-se à pobreza no mesmo indivíduo constitui um justo motivo de terror para a sociedade. O perigo social cresce e torna-se de mais a mais ameaçador, à medida que o pobre deteriora a sua condição pelo vício e, o pior, pela ociosidade (vol.3, p.73, sessão de 10 de junho de 188 8)

Faz tempo, mas nada mudou. Os perigosos de ontem continuam sendo os suspeitos de malfeitorias de hoje. Têm classe e raça bem determinadas. Quando o criminoso condenado não se encaixa neste grupo de sempre, o judiciário dá um jeito de encaixá-lo no papel de vítima de sempre.

No final do ano passado, o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do Rio de Janeiro, proibiu determinados jornais e emissoras de televisão de veicular nome e imagem de dois condenados (condenados, não suspeitos) por espancamento que não pertenciam ao grupo social eternamente suspeito.

O caso
No dia 04 de novembro do ano passado, Fernando Mattos Roiz Jr., de 19 anos, Luciano Filgueiras Monteiro, de 21, e um menor de idade roubaram um extintor de incêndio e o utilizaram para atacar um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca, ferindo seriamente as vítimas. Uma pessoa viu tudo e chamou a polícia. Os agressores não pegaram cana; rodaram com uma pena alternativa, trabalhar oito horas por semana na limpeza de ruas, durante um ano.

O pai de um dos agressores deu entrevistas afirmando que a pena era injusta e que o espancamento não passava de uma brincadeira de criança. Virou notícia. Baita inconveniente. E jovem com futuro promissor não pode ter inconvenientes pelo caminho. Com a divulgação de fotos dos rapazes, o pessoal ficava zoando com eles. Não pode. Seus advogados, então, entraram com o pedido de censura prévia e o juiz assinou embaixo calando os dez principais veículos do RJ.

Primeiramente é bom lembrar que, num caso de agressão deste tipo, a pena alternativa é uma alternativa para quem tem advogado. Quem não tem alternativa fica com o defensor público e puxa cadeia por furtar uma tesoura ou coisa do tipo.

As declarações do pai do espancador e a posição do juiz revelam valores vigentes desde que se implantou sistema judiciário nestas terras. Quando se junta raça negra, profissão de baixo nível e pobreza o cara é um perigo para a sociedade de bem; quer logo passar a mão nas coisas de gente que conseguiu tudo com seu próprio trabalho (em vez de procurar a polícia, a vítima manda cartinha para jornal, que é a instituição que irá defendê-lo).

Quando junta-se profissão de bom nível, poder econômico, cor da pele branca e crime, alguma coisa está errada. Espancaram empregada doméstica que estava no ponto de ônibus? Coisa de jovem, pensavam que era uma prostituta, foi engano. Queimaram índio na rua? Poxa, a garotada o confundiu com morador de rua. Espancaram prostitutas? Foi brincadeira, todo mundo faz isso.

O papai pode até achar que seu filho não deveria ter o nome no jornal. Já juiz aceitar o argumento dos advogados dele significa outra coisa. Afirmar que sua decisão “independe de raça, profissão ou gênero” é tirar onda com a cara de qualquer um que viva no Brasil ou saiba o que se passa nas ruas e casas do país, e é insultar quem apanha por ser suspeito.

Fica combinado, então. Já que o judiciário está preocupado com a exposição na mídia de pessoas envolvidas em crimes. E já que isso não tem nada a ver com classe, gênero ou raça é o fim da clássica foto do caçador com sua caça:

Não veremos mais cena de suspeitos negros sem camisa (zoom nas tatuagens) tendo o rosto levantado à força por policiais para que os jornais e TVs tenham uma boa imagem.

Conseqüentemente, os policiais também ficam liberados de emprestar camisa ou paletó para os condenados que possuem bons advogados esconderem os rostos.

O juiz decide poupar duas pessoas que, como bem resumiu Idelber, agiram claramente motivados pelo gênero, profissão e classe das agredidas, “numa clássica denegação freudiana”, para isso censura a imprensa e tudo bem, fica por isso mesmo?

Os grandes jornais dedicaram quantos editoriais raivosos contra a decisão do juiz? Quantos artigos argumentaram em defesa da liberdade de impresa? Só notícia curta e nota padrão. Discutir plano de controle externo do judiciário edemocratização da mídia propostas pelo governo é que é censura de verdade e merece enxurrada de artigos cheios de frases pungentes em defesa da democracia.

Jovens x Suspeitos
Sugestão: ler os jornais de amanhã contando quantos suspeitos ou culpados pertencentes à classe média/alta são denominados como suspeitos ou condenados. Depois conte quantos suspeitos ou culpados pertencentes à classe baixa são denominados como jovens.

Um adiantamento do resultado:

Jovens são acusados de espancar índio até a morte em MG” (18/09/2007, Folha de S.Paulo)
Jovens de classe alta são acusados de tráfico” (09/11/2007, Folha de S.Paulo)
“Minas Gerais: Polícia prende dois suspeitos de assassinato” (14/12/2007, Folha de S.Paulo)

Relacionados:
A última do judiciário, parte 328, artigo, O Biscoito Fino e a Massa
A mídia miou, artigo, Observatório da imprensa
O judiciário decide o que é notícia…, artigo, Na média
O filtro curto e objetivo, artigo, Acorda Brasil
Limpeza nos jornais, artigo, Consultor jurídico

Censura e demissão no Jornal do Comércio de Porto Alegre, artigo, Panóptico
A construção das classes perigosas no Brasil, artigo, CMI
Para não repetir a tragédia da Escola Base, artigo, Observatório do direito à comunicação

Notas públicas:
Associação Nacional de Jornais (ANJ) condena censura feita por juiz, nota, ANJ
Nota da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), nota, ABERT
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) condena censura prévia imposta por juízes do Estado do Rio e Paraná, nota, ABI

Technorati tag: censura


3 comments Janeiro 15, 2008

Deixa conosco, Andrew

Andrew Keen, famoso por defender idéias de pastel sobre as novas mídias colaborativas, às vezes até parece defender o lado de cá. É que para ele e para a grande mídia o que é ruim é bom.

Muitos são jornalistas fracassados, gente que não conseguiu ser da mídia, por isso é ressentida, raivosa. Eles têm fome de poder. Representam um novo tipo de oligarquia que encontrou um meio de obter uma grande parcela de poder. São treinados, podem ter agendas sobre as quais nada sabemos. São tendenciosos, bem formados, jovens, raivosos e radicais. Não têm valores significativos, na minha visão, para a nossa cultura (…)

(…) Parte da mídia tradicional já foi destruída. Estamos assistindo à morte lenta da indústria da música, estamos assistindo à morte lenta dos jornais locais nos Estados Unidos. Não acho que nós viveremos num mundo sem nenhum profissional especializado em agregar informação (…) (Fonte: “A web 2.0 é uma ameaça à cultura”, Época Notícias)

Rapaz, é isso mesmo que a gente quer ou será que ainda não deu para entender?

Link via Webinsider

Relacionado:
Estadão e blogs: Grande mídia e liberdade de comunicação


3 comments Janeiro 15, 2008

Sobre carros e asas: não seria uma vergonha se só andássemos de carro?

Semanalmente, milhares de pessoas passam pela praça do ciclista. Mas as asas da bicicleta de Mona Caron pode ser vista por pouco tempo. A prefeitura cortou-lhe as asas e deixou no lugar um quadro cinza para quem passa pelo cruzamento da Av. Paulista com a Consolação poder apreciar.

Diariamente milhões de pessoas assistem canais de televisão onde são exibidos filmes publicitários bem produzidos. Alguns dizem que muitos destes filmes atentam a inteligência dos animais com dedo opositor desenvolvido, mas eles esquecem que no Brasil temos o CONAR sempre alerta para nos proteger.

Assim como a Toyota fez brotar carro (a vida) da terra, a Ford resolveu inverter a lógica da existência da vida neste planeta.

Após as imagens de pássaros caminhando pelas ruas, tomando elevador e andando em escadas rolantes temos a tradicional mensagem “engraçadinha”:

“Não seria uma vergonha se os pássaros nunca usassem suas asas”

Na seqüência um casal entra no carro e sai dirigindo, digo, voando.

Os animais eretos que se sustentam sobre dois membros podem achar estranho que milhões de anos de evolução tenham resultado num Ser cujo dedo opositor sirva apenas para segurar o cartão de crédito e o volante de um carro e cujos membros inferiores não sejam usados para deslocamento independente. Mas esse estranhamento é decorrente de uma educação científica falsa.

Essa história de membros desenvolvidos e povoamento humano dos continentes feito na base da musculatura é mentirosa. E é graças a indústria automobilística que hoje podemos conhecer a verdade: o corpo humano desenvolveu pernas para acelerar, pisar fundo e frear - quando dá tempo.


1 comment Janeiro 14, 2008

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