Pedintentes e turistas

Dezembro 19, 2007

Correm descalços na areia escaldante, levam cervejas, caipirinhas, peixes, macaxeiras. Ao virarem as costas, o “doutor” lembra-se de algo “ô…”, o sal, o vinagrete… Vão e voltam com o esquecido. Assim vai o dia, correndo de um lado para o outro, cruzando seu trecho particular de deserto, “a conta”, “mais uma”, “mais uma cadeira”, “tá saindo?”. Trabalham para os bares, restaurantes e barracas oficiais da praia.

Os demais estão por conta. Eles e elas vendem camarão, queijo coalho (com mel, orégano ou alho), caranguejo, ostra fresca, passa de caju, cocada, brinco e pulseira, “trampo hippe”, tatuagem provisória, trança de cabelo, tererê, pastel, lanche natural, canga, biquíni, presilha de cabelo, origami de folhas naturais.

Guiam turistas por praias e cidades (sem compromisso), indicam pousadas e hotéis correndo atrás de carros na entrada de balneários, mentem necessidades e inventam estórias trágicas que amolecem o turista, armam e desarmam fileiras imensas de guarda-sóis, limpam praias para que os próximos voltem a sujar, lavam os pés dos turistas nas embarcações, ajudam a descer e a subir de bugs, barcos, vans e ônibus, mergulham em busca de cavalos-marinhos, levantam ancoras, recolhem velas, servem frutas, tiram fotos submarinas e terrestres, resgatam quase-afogados.

Perdidos em plena juventude. Sem ter o que fazer nos paraísos do planeta. Sem ter o que fazer em plena juventude. Fazem qualquer coisa por uns trocados. Inclusive acompanhar senhores durante algumas horas.

Os programas de incentivos ao turismo beneficiam apenas grandes agências de viagens, empresas de transporte e redes de hotéis e restaurantes.

O resto é miséria. São cidades desorganizadas onde o dinheiro dos turistas e impostos vão para não se sabe onde. Programas de fomento à venda disfarçada de mendicância, à servidão disfarçada de presteza, ao trabalho infantil disfarçado de bico de verão.

A alegria do povo brasileiro é uma de suas características mais evidentes e marcantes. Em cada cantinho do nosso País é possível provar da simpatia, do calor humano e da hospitalidade da população local. Fonte: Ministério do Turismo, Com quantos sorrisos se faz um país?

Sim, podemos ver a alegria com que eles nos servem.

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3 Comments Add your own

  • 1. Arnoud  |  Dezembro 21, 2007 at 10:55 am

    Concordo que não se sabe para onde vai o dinheiro do turismo.

    Dizem que “o turismo gera emprego e renda”. No curso sempre perguntamos que tipo de emprego e para quem é esta renda.

    Por outro lado, 90% das pessoas que trabalham com turismo gostam de verdade do que fazem. Cada um tem seu motivo.

    Eu já trabalhei de graça como garçom. Outras vezes, mesmo recebendo para o trabalho, o maior ganho era eventualmente servir pessoas muito cultas, sofisticadas, ou artistas(nem sempre famosos) que com suas músicas, já me acompanhavam por décadas.

    Julgar as pessoas apenas pelo nosso ponto de vista pode nos levar a equívocos.

    A despeito disso, parabéns pelo blog!

  • 2. panoptico  |  Janeiro 2, 2008 at 2:34 pm

    Oi, Arnoud.

    obrigado pelo comentário.

    com certeza parte dos trabalhos são empregos descentes, mas a idéia era falar sobre sobre os trabalhos informais, que aparentemente são a maioria. Em qualquer bar você vai encontrar um jovem correndo para lá e para cá levando cervejas, em qualquer praia verá várias crianças vendendo qualquer coisa.

    Infelizmente a maioria das pessoas não parece feliz nestes trabalhos, o fazem por necessidade, em troca de muito pouco e sem qualquer garantia de direitos.

    No meu ponto de vista a coisa poderia ser bem diferente. Crianças brincando, jovens estudando e adultos brincando, estudando e trabalhando com segurança e direitos garantidos.

    abraço

  • 3. Andre L. Soares  |  Janeiro 3, 2008 at 3:48 pm

    Lindo texto. Eu que moro em Guarapari (ES), cheguei a pensar que o ‘post’ se referia ao cotidiano que eu observo desde sempre. Grande abraço!

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