Feridas e veículos inofensivos
Dezembro 1, 2007
Os motoboys são pobres diabos que se acidentam continuamente e morrem como moscas em troco de uma miséria. São uma ferida social que não se cura com queixa na polícia. (Fonte: Diários da motocicleta)
Realmente não consegui entender a razão dos motoboys serem chamados de ferida social pela jornalista.
O trecho completo é:
Muita gente quis que eu fizesse boletim de ocorrência do atropelamento. A culpa, no entanto, não foi do rapaz que me atropelou. Enquanto motos forem consideradas veículos inofensivos pelo Detran, enquanto costurar for prática rotineira e aceita por todos, enquanto empresas prometerem a seus clientes que podem entregar qualquer coisa em qualquer lugar da cidade em dez minutos, não haverá boletim de ocorrência que adiante nada. Os motoboys são pobres diabos que se acidentam continuamente e morrem como moscas em troco de uma miséria. São uma ferida social que não se cura com queixa na polícia.
Certamente, a não aplicação das leis de trânsito e a rotina de “vale-tudo” no trânsito não se resolverão com boletins. Ontem, indo para o aeroporto de Congonhas um motoboy estava no chão, o taxista que me levava disse “todo dia eu vejo 2, 3 acidentes com moto; 2, 3…todo dia”, lembrei desse artigo de Cora que eu havia lido e sentido uma pegada de que as motos deveriam ser exterminadas e deixar as ruas para os carros, que sabem o que fazem. Uma pedestre atropelada com uma visão de motorista?!
Lembrei-me dos comentários cheios de cidadania da Rádio CBN, “os motoboys fazem o que querem”, “a rua x está cheia de buracos”, “radares e a indústria da multa”, “caminhões na pista da esquerda, quem eles pensam que são”. Todas as manhãs os comentários têm um víeis, digamos, jornalismo-cidadão, “cobre das autoridades”, “ligue para o seu vereador” e assim vai.
Escamoteiam uma visão motorista-taxista, digamos assim, as ruas e a cidade é sempre vista pela janela do carro. Todos os absurdos que os cidadãos devem tomar partido, reclamar, são absurdos para o motorista.
“(…) Enquanto motos forem consideradas veículos inofensivos pelo Detran…”
Esta frase também não consegui entender. O raciocínio desconsidera que:
Não existe veículo inofensivo, existe veículo mais ou menos ofensivo;
Ser atropelado por um carro, em geral, a depender a velocidade e do “jeito”, é pior;
Considerando o peso do veículo, carros de passeio deveriam ser considerados mais ofensivos aos pedestres do que motos, os caminhões e ônibus mais ofensivos que o automóvel;
Entendi que talvez a frase parta da idéia de que carros cometem menos loucuras no trânsito do que motos, o que não é verdade. Os motoristas costuram e se arriscam tanto quanto os motoboys, sabendo que têm uma armadura de metal como proteção. As estatísticas de “acidentes” estão por aí, é só pesquisar.
Enfim, sem o víeis motorista, o correto seria “enquanto os veículos automotores forem considerados inofensivos…” pessoas continuarão sendo atropeladas aos montes.
Relacionados:
Motos, trânsito, status e mortes
Não assassinar, uma das vantagens de não dirigir
Entry Filed under: transporte. Etiquetas: pedestre, trabalho, motocicleta, motoboy.
1 Comment Add your own
Leave a Comment
Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
Trackback this post | Subscribe to the comments via RSS Feed



1.
A criminalização dos mo&hellip | Fevereiro 9, 2008 at 10:17 am
[...] a nada, simplesmente porque a mídia é da classe média (motorista de automóvel), vê o motoboy como uma praga e quer higienizar a cidade. O que a mídia chamou de “debate” só reforçou o [...]