Ecosport solta algodão pelo escapamento
Novembro 27, 2007
O limite do lucro neoliberal é sempre elástico, estica conforme a conveniência. O empresariado sócio-responsável e defensor da sustentabilidade começa sonegando imposto porque a “carga tributária é muito alta”, segue burlando as leis trabalhistas “para manter os postos de trabalho” e acaba escravizando criança em país subdesenvolvido como o Brasil para “atingir as metas do ano” e poder “comemorar o crescimento no setor”.
Todos eles são contra o controle desta elasticidade nos canais de TV sob concessão pública, é “censura”. Enquanto o cidadão não pode regulamentar diretamente ou por meio de seus representantes eleitos o que seu moleque vai assistir durante o almoço, o diretor comercial da Rede Globo o faz por todos nós. Para o experiente profissional e seu conselho de sábios do CONAR carro é para quem se contenta com muito, os equipamentos de segurança no trânsito são hilários e qualquer veículo automotor pode ser “eco” e “sport”.
O filme publicitário do novo ecosport é lúdico e fantástico, com cores leves e narração mais lenta do que o comum, poderia passar no intervalo da programação infantil matinal. Entre a venda de brinquedos com chumbo e alucinógenos a inserção estaria bem posicionada.
É mais uma cidade publicitária, sem o barulho dos carros, sem a poluição dos carros, sem as batidas dos carros, sem os atropelamentos dos carros, sem os assaltos aos carros… Na cidade do ecosport não existem outros carros, ele roda tranquilamente pelas ruas desertas, lombada é jacaré, fumaça é algodão e toda a cidade cheira perfume.
Depois dos pequenos e pequenas aprenderem a apontar para a TV e dizerem “eu quero” para todos os comerciais que passam entre uma aventura de “power ranger” e outra, o que virá? Quando um filme de um carro pesado apela para cenários fofos numa cidade tranqüila e cheia de vida fantástica, lembro dos apelos da indústria tabagista que entendeu que seus consumidores precisavam ser cativados desde cedo.
O que teremos agora, as crianças vão apontar o carro e dizer “Olha, o jacaré. Ó, o foguetinho! Eu quero! Eu quero! Let’s ride papai!”?
A versão argentina do filme do ecosport, abaixo, foca o mesmo tema, a diversão, porém com o jovem carente de emoção como protagonista. O carnaval não é divertido, dançar pelas ruas não é divertido, divertido é ficar parado no trânsito dentro de um “jipe esportivo ecologicamente chique”.
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