Garotos e garotas da bolha

Novembro 5, 2007

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Uma grave doença vem se espalhando no ambiente urbano controlado pelo capital. Famílias inteiras sofrem com os sintomas desta que já se considera a pior epidemia urbana desde o último surto de peste no século XIX.

A classe média parece ser a população com menor resistência à doença. Em muitos casos os infectados são obrigados a viver dentro de bolhas. A bactéria se aloja em empreiteiras e construtoras que se alimentam basicamente de licitações fraudadas, lobbies municipais, especulação violenta e outras artes. Todas construtoras, já constataram os infectologistas que cuidam do caso, tomam dinheiro emprestado dos próprios clientes para construir e dizem às famílias que se trata de “parcelamento do imóvel na planta”.

Os principais transmissores da doença são imobiliárias e corretores contratados. A falta de nutrientes essenciais ao homo sapiens e a exposição excessiva à mídia corporativa e à publicidade exploradora da insegurança das almas são considerados fatores que aumentam o risco de contaminação.

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Habitantes de Springfield tentam escapar da redoma. Cena de Os Simpsons, O Filme.

A doença – só que invertida – foi tratada no estilo humor do absurdo no filme Os Simpsons. No filme, Homer Simpson causa um desastre ecológico e, para evitar maiores danos, o presidente ordena o isolamento da cidade. Todos os cidadãos de Springfield são abandonados à própria sorte (…a empresa do assessor do presidente é contratada para garantir o isolamento).

No mundo real os cidadãos tratam de se isolar da sociedade voluntariamente, deixando do lado de fora da sua cidade particular a violência e tudo que os amedronta. Acreditam que uma redoma de vidro impenetrável os protegerá da fome, da doença, dos assaltos, do trânsito e de todo horror do mundo.

A publicidade, como um velho malandro 171, conhece seu alvo e ataca diretamente seus pontos fracos. O medo de descer um degrau na escala de status social, o medo de expor sua ignorância, a vontade de parecer com seus ídolos anônimos ou famosos e de mostrar seu suposto crescimento aos colegas fazem parte do estratagema da publicidade voltada para a classe média.

Centenas de ilhas da fantasia, parques privativos e redomas blindadas formam algo monstruoso. Um local onde apenas há avenidas, shoppings center e condomínios com seus “portais” onde os carros entram e não se sabe mais nada sobre esta cidade dentro da cidade e seus habitantes – como eles vivem, o que comem, como se reproduzem… Temos, assim, um mundo dentro de um mundo, estranhos, o começo do fim do que se chama de sociedade.

Enquanto os recursos dos fundos públicos sustentados por milhões de trabalhadores são usados para construção destes fortes de proteção contra a fealdade do mundo, seus financiadores continuam pagando por aluguéis irreais em bairros do lado de fora da bolha. Abandonados à sorte da especulação imobiliária, ainda são obrigados a tolerar o discurso da “revitalização”, a maquiagem urbana utilizada para que os habitantes das redomas possam sair de vez em quando e não terem que se deparar, a caminho do teatro, com a bestialidade da pobreza.

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Cidade privativa

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10 Comments Add your own

  • 1. Uma questão de espaço « apocalipse motorizado  |  Novembro 17, 2007 at 11:58 am

    [...] público é comprar um carro e que o mundo perfeito está dentro de uma bolha particular. Garotos e garotas da bolha A rua inteligente This entry was written by luddista and posted on 17 de Novembro de 2007 at [...]

    Responder
  • 2. Madu  |  Novembro 22, 2007 at 7:54 am

    Boa reflexão.
    Mas como a gente muda isso?
    Será que basta acabar com a publicidade?
    Que alternativa existe ao “capital”? O socialismo morreu pela própria incapacidade das pessoas (seja pelo poder corrompido ou pela insatisfação das pessoas).
    Que sistema novo a gente vai propôr para mudar isso tudo?

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  • 3. Eu destruo o planeta « Panóptico  |  Fevereiro 20, 2008 at 3:58 pm

    [...] das opções rumo à privatização da cidade e à promoção do isolamento de luxo é comprar um apartamento num condomínio hotel-clube e ganhar uma árvore – com direito a estampar [...]

    Responder
  • 4. “Zonas-bolha” « Panóptico  |  Março 10, 2008 at 2:13 pm

    [...] The Shock Doctrine by Alfonso Cuarón and Naomi Klein, vídeo Garotos e garotas da bolha Cidade [...]

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  • 5. Blindagem grátis « Panóptico  |  Abril 17, 2008 at 5:02 pm

    [...] que estar num Jaguar blindado é mais seguro do que estar num carro comum sem blindagem só pode viver dentro de uma bolha e desconhecer completamente o que desejam os [...]

    Responder
  • [...] investimos em condomínios, em pontes e túneis, o animal coletivo vai se acanhando, se isolando. Machucado, fica arredio e a [...]

    Responder
  • [...] sem medo. Tomaram a cidade, suas descidas e subidas, numa bicicleta de carga. E desprezando as bolhas de “lazer completo” mostraram que lugar de criança é na [...]

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  • 8. Gonçalo Pais  |  Julho 29, 2008 at 11:13 am

    Sensacional este post, que consegue retratar com mestria a realidade dos novos-ricos, condomínios, suvs, playstations e ares condicionados. Há quem reclamar a rua, reclamar o que é por direito nosso e dos nossos filhos.
    Bem haja pela sagassidade e capacidade de causar o desassossego.
    abraço

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  • 9. daniel muteca  |  Outubro 6, 2008 at 7:09 am

    quero saber do método shel

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  • 10. Um bosque só seu « Panóptico  |  Dezembro 17, 2009 at 11:07 am

    [...] – e as pessoas – que a classe média não vê Por que construímos praças? Cidade privativa Garotos e garotas da bolha A propriedade privada foi feita para [...]

    Responder

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