A propriedade privada foi feita para você

A idéia de merecimento é um daqueles argumentos publicitários que pode ser usado praticamente para qualquer mercadoria.
O tênis é caro, mas, poxa, você merece; afinal tem trabalhado feito um louco! Você cuida da casa, do maridão, das crianças, trabalha “fora”… você merece cuidar de você e usar nosso creme hidratante.
O “eu mereço, vai…” é uma das frases mais ouvidas naquela hora de indecisão entre o “compro” ou “não compro”. É tiro e queda, uma vez que todos merecem conforto.
O problema da lógica do “eu mereço” é simples: Quem deseja uma mercadoria e não pode comprá-la, não a merece?
Ao afirmar que “tal coisa não foi feita para você” a publicidade vende uma distinção social cruel: financia o isolamento social à minoria que pode comprar e joga sobre a maioria que não pode adquirir tal ou qual cacareco o peso da culpa pelo próprio insucesso e miséria.
Pobre merece morar de aluguel. Você não, você é diferente, muito diferente. Aluguel não foi feito para você, foi feito para um outro pessoalzinho aí. Você é “outro nível”. O fato de você não ter o dinheiro para comprar uma casa à vista, não passa de um detalhe; nós te emprestamos por juros de 9% ao mês e você escapa de ser confundido com esse bando de gente que não merece nada além de pagar o aluguel.




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