Bionegócios abastecem motores com álcool e sangue

Agosto 10, 2007

Uma tonelada de cana-de-açúcar gera cerca de 40,5 litros de álcool combustível, cada cortador de cana precisa cortar no mínimo 12 toneladas por dia para manter-se “empregado”, para tal golpeia seu facão cerca de 120 mil vezes por dia.

Um carro que consume cerca de 1 litro de álcool por quilometro queima cerca de 0,024 toneladas de cana-de-açúcar por litro. Cada dia de trabalho de um cortador de cana (pelo menos 12 toneladas) abastece 486 litros, o suficiente para rodar uns 6318 km, com um custo ao consumidor de uns R$ 962 (média brasileira R$1,98/litro). Seria o consumo semestral de um carro que percorre cerca de 35 km diariamente - em São Paulo é algo como ir e voltar de uma residência num condomínio fechado com lazer completo ao trabalho na região central.

Os cortadores de cana ganham por produção, muitos pararam de produzir porque morreram exaustos no meio do canavial pensando em juntar algum dinheiro enquanto seus patrões almoçavam com representantes do BNDES; outros perderam um membro na lâmina do próprio facão enquanto palestras eram proferidas no World Trade Center paulistano; todos têm uma vida produtiva curta, seus corpos, levados ao limite, não conseguem continuar abastecendo automóveis por muitos anos.

“Para se ter um parâmetro, na década de 80, na greve de Guariba, os trabalhadores conquistaram um piso salarial para a categoria, de dois salários mínimos e meio. O piso é referência para os dias que ele não corta cana e baseia o cálculo dos direitos trabalhistas. Isso trazido para o salário de agora daria R$ 950,00. Mas hoje, uma pessoa que corta em média 12 toneladas por dia, ganha entre R$ 600,00 e 750,00 por mês. O piso salarial mais alto da categoria, que acaba de ser negociado pelos trabalhadores que fizeram greve no Estado de São Paulo, é de R$ 500,00, ou seja, um pouquinho mais que a metade do piso salarial da década de 80. De outro lado, a produtividade do trabalhador entre a década de 80 e hoje duplicou: era de seis toneladas de cana por homem, por dia. Agora é de 12 toneladas por homem, por dia. Quem não corta dez é mandado embora.

Portanto, a gente poderia tomar como indicador de salário atual o piso salarial da década de 80. Principalmente num momento em que o álcool é a vedete mundial. A cana está na crista da onda, mas ela tem um enorme passivo trabalhista. Por que é que não se conserta isso? Os usineiros dizem que não podem pagar por produção porque ´sempre foi assim`. Mas não é verdade, uma parte da produção era escrava e os escravos não ganhavam por produção.” (Francisco Alves, em entrevista a Beatriz Camargo, em Repórter Brasil).

Entrevista completa: Pesquisador prega extinção do trabalho por produção

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  • 1. Progresso « Panópt&hellip  |  Dezembro 10, 2007 at 8:31 pm

    [...] Bionegócios abastecem motores com álcool e sangue Cana-de-açúcar, verbete, [...]

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