Archive for Agosto, 2007

Patrocinar a aventura pessoal de alguns

Zé Rodrix pediu demissão da direção da peça “Rei Lagarto” por ser uma produção financiada pela Lei Rouanet. Na carta abaixo, publicada pelo jornal O Globo, ontem, ele afirma não acreditar “que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS”.

Via Na Pararela, do Urbe

Acabo de descobrir exatamente nos detalhes desta notícia que não vou mais participar do projeto. Vocês conhecem a minha opinião sobre Renúncia Fiscal e Leis de Incentivo. Enquanto isto era um empreendimento privado, no máximo com os patrocínios e os apoios diretos de empresas que se associariam ao empreendimento, eu estava dentro. Infelizmente, ao entrar na jogada da Lei Rouanet, MiniCul etc., ele se torna impossível para mim. Não acredito que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS, e, quando isto se configura, eu saio fora. Investimento deve ser feito com dinheiro real que não prejudique o essencial do país. Impostos devem ter fim específico, e os sustento da arte não é, a mer ver, uma destas essencialidades. Sempre fui um artista que não se privilegiou de nenhum tipo de ligação com estados e governos, em nome de minha própria liberdade. Assim sendo, há que haver em mim algum respeito pelas coisas em que eu acredito. Se entrar nisto, estare negando tudo que é a minha maneira de ser, pensar e agir. No Brasil de hoje, precisamos de investidores conscientes, e não, segundo minha maneira de ver a realidade, de utilizar de maneira equivocada o dinheiro público. Desejo ao pessoal da produção o máximo de sorte e sucesso possíveis, e sei que serão muito felizes, graças à qualidade artística de todos os envolvidos”.


Add comment Agosto 31, 2007

Estadão e blogs: Grande mídia e liberdade de comunicação

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Parece brincadeira, mas não é. Após colocar um macaco para representar um blogueiro numa campanha publicitária desenvolvida pela agência Talent (veja vídeo abaixo), o jornal Estadão promove hoje, às 19h, um debate sobre “Responsabilidade e Conteúdo Digital” - transmissão pela net.

Não é brincadeira, é tática pano quente de quem deu tiro no próprio pé, uma vez que, certamente, o debate foi decorrência do barulho que a campanha causou entre blogs brasileiros influentes.

As respostas de João Livia, criador da peça publicitária, aos blogs são no mínimo inconsistentes. Mas de alguém que entende a cidade como dividida em duas: uma escura e outra clara e inteligente, não se espera quase nada. Vale a pena citar este ponto:

“No seminário da Microsoft este ano, em Cannes, os dados apresentados levaram a uma inconteste conclusao - a de que a internet, como as regioes de uma cidade, vai se dividir em duas. Uma útil, crível, inteligente, prestadora de serviço, informativa e confiável. Outra que é como uma rua escura e sem policiamento - vai quem quer, sob seu próprio risco. Vamos sempre promover o estadao.com como parte da primeira metade. Separar o joio do trigo na internet deveria ser do interesse de qualquer cidadao de bem”.

Fonte: Joao Livi defende a campanha da Talent para o Estadao, em Blue Bus

Percebe-se que uma campanha tão inteligente quanto esta “Por onde você anda clicando?” só poderia vir de uma agência com um nível de compreensão da sociedade tão apurado. Uma campanha com incrível percepção do tempo atual, que captou o potencial da internet, que saca tendências, que percebe que a mídia impressa produzida por uma grande empresa é o futuro da comunicação e que o conteúdo gerado por alguns jornalistas iluminados e críticos especializados é a informação fiel e independente que todos queremos. Uma campanha com uma visão estratégica de negócios realmente inteligente que não deixa transparecer em nada o desespero e a impotência de um grande jornal diante de seres de diversas idades, origens e níveis de conhecimento trabalhando num ambiente que possibilita colaboração.

Os artigos sobre a campanha foram desenvolvidos mais intensamente em blogs dedicados à publicidade, negócios e correlatos. Muito já foi dito sobre a campanha e os artigos basearam-se, principalmente, nos argumentos de que o Estadão ainda considera blogs como diários bobos, cheios de posts copiados de veículos “inteligentes” e que jogou os blogs bobos, irresponsáveis, mentirosos e cia no mesmo saco dos blogs originais, responsáveis e inteligentes, utilizando uma generalização rala e estereopitada para descredenciar a blogosfera.

A internet é antes de tudo o lugar onde novas concepções de produção correram à todo vapor. Apesar destes ideais já existirem há tempos, vimos o código aberto, o copy left (ou anti-copyright), a desobediência civil, a troca de conhecimentos e a mídia independente frutificarem rapidamente e se espalharem como os mais otimistas esperavam.

Não deixa de ser muito curioso que na mesma semana que os comentários ganharam volume uma pequenina agência de notícias cheia de jornalistas qualificados chamada Reuters publicou imagens de submarinos russos no fundo do mar. Nesta agência, claro, não existem macacos que “copiam e colam”. O problema foi que um finlandês de 13 anos de idade percebeu que as imagens do submarino eram do filme “Titanic”. A grande impressa e muito sofistica, não?

Por aqui, uns dois meses antes, a Folha de S. Paulo montou uma foto num restaurante para fazer ele parecer mais cheio. O problema neste caso foi que uma leitora percebeu a farsa, observando que, por exemplo, um cliente que ainda lia o cardápio recebia do garçom o cafezinho final.

Lembra aquela TV australiana ABC que pediu que algumas criancinhas brincassem junto a um míssil no Iraque para dar uma cena legal? Coisa boba, sem risco.

A grande imprensa é mentirosa e por natureza viciada. Sua sobrivência depende de negócios lucrativos, por isso busca notícias, cenas, imagens e falas que joguem o mercado a seu favor. Este fato simplesmente impossibilita a tal neutralidade que dizem buscar e já descredencia todos os outros argumentos sobre credibilidade que poderiam ser discutidos. A história da maior rede de TV brasileira, que produz o telejornal mais assistido do país, não é nada bonita. É um apêlo primário a do “criativo” da Talent dizer que “separar o joio do trigo na internet deveria ser do interesse de qualquer cidadao de bem”, pois quem controla e toca os grandes veículos de comunicação não são cidadãos de bem.

A internet é o ambiente de comunicação mais livre que conhecemos hoje, por isso mesmo vem sofrendo fortes ataques e pesadas restrições de grandes corporações e governos. É um ambiente que ainda atinge poucas pessoas, mas que (se mantidos os níveis de liberdade) pode mudar a forma como a informação circula e é produzida hoje. Jornais se debatendo sem ar é uma imagem que já estamos nos acostumando a assistir. Sinal que enquanto eles estão vendendo, nós estamos produzindo. Estamos vencendo.

Technorati tags: estadao, blogosfera.


4 comments Agosto 29, 2007

Tinha um carro, um poste e uma guarita no caminho

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Tinha um portão, um poste e uma guarita no caminho

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rua francisco iasi, pinheiros, são paulo


Add comment Agosto 29, 2007

Congresso Internacional de Trabalhadores de rua

Neste quinta, dia 23, acontecerá o Congresso Internacional de Trabalhadores de rua (incluindo camelôs e catadores), com delegações de diferentes países da África, Ásia e América Latina. Este congresso é uma iniciativa da CUT e Streetnet, organização internacional que reúne associações de trabalhadores informais de diferentes países dos continentes acima citados.

O diálogo de políticas possui também como objetivo dar uma oportunidade às organizaçöes de trabalhadores de rua locais confrontarem com os formuladores de políticas públicas do país anfitriäo.

Os problemas dos trabalhadores de rua tem sido um grande desafio para os governos em muitos países do mundo, considerando que o setor formal está decrescendo, com resultado em mais pressão sobre os espaços urbanos, desafiando o planejamento urbano tradicional. Muitos governos estäo ainda tentando solucionar esses problemas tendo em vista as implicações mercantis para os próprios trabalhadores de rua poderem se auto-sustentar. Fonte: streetnet.org.za

Local: auditório da CUT, rua Caetano Pinto, 575 (metrô Brás).

Programação:

9h00 - 9h30 Abertura
Introdução por StreetNet, Pat Horn
Primeiro expositor (CUT), João Felicio

9h30 - 10h30
Vereador pelo PT na Câmara Municipal de SP Propostas de políticas públicas e regulação atual do comércio ambulante no município de São Paulo. Foco nos canais de negociação entre a categoria e Poder Público.
Beto Custodio

11h00 - 12h00
Organização e política em Benin
Clarisse Gnahoui (USYNVEPID, Benin)

12h00 - 13h00
Políticas públicas e processo de organização a nível local, regional e nacional no setor de coleta de materiais recicláveis
Carlos Enrique e Eduardo, Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável - MNCR e Antonieta Vieira, socióloga, FIPE-USP

14h30 - 15h30
Política Nacional de Vendedores Ambulantes na Índia
Arbind Singh (NASVI, India)

16h00 - 17h00
Política e regulação da economia informal no nível nacional
Ministro Luiz Marinho - Ministério da Previdência Social

17h00 - 17h30
Coletiva de imprensa

17h30
Encerramento


1 comment Agosto 22, 2007

2a. Edição da Cartilha sobre Abordagem Policial

Amanhã, dia 23, 10h acontece no Salão de cidadania no Prédio da Secretaria de Justiça (Pátio do Colégio) o lançamento da 2a. edição da Cartilha sobre Abordagem Policial.

A cartilha “Abordagem Policial - O que podem e não podem fazer os policiais” vem responder ao anseio que muitas pessoas têm em conhecer as atribuições de um policial civil ou militar durante uma abordagem, independentemente do grau hierárquico que ocupa.

Para esta nova reedição incluímos três novos pontos fazem parte da nova edição:

1. Abordagem ao grupo GLBTT- gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais.

2. Metodologia das Audiências Públicas Comunitárias, que visa promover o diálogo entre comunidade e autoridades na busca de soluções dos problemas da comunidade.

3. Proposta de criação de Núcleo de Apoio à Ouvidoria de Policia do Estado de São Paulo. , que visa divulgar os serviços da ouvidoria de Policia junto às comunidades.

A cartilha “Abordagem Policial” é uma iniciativa do Centro de Direitos Humanos de Sapopemba, em parceria com o Movimento de Direitos Humanos do Regional São Paulo, Instituto Brasileiro de Estudos Comunitários-IBEAC, Entidade Ser Humano, Observatório de Violência Policial, Cedeca Mônica Paião Trevisan, Cedeca Dom Luciano Mendes de Almeida e Instituto Daniel Comboni.

:: Baixe a Cartilha de abordagem policial aqui ::

Technorati Tags: policia, direitoshumanos


Add comment Agosto 22, 2007

Motos, trânsito, status e mortes

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Paulo Fehlauer. Alguns direitos reservados.

Muitas vezes a opressão do hoje leva a decisões de curto prazo que justamente comprometem o bem-estar futuro.

Cansado de ônibus lotados, carros “populares” com pagamento facilitado, você entra nessa também, 36 vezes, nada demais, você tembém pode. Uma decisão individual. Algumas avenidas engarrafadas começam a ser evitadas, alguns horários começam a ser evitados, logo rádios e TVs se especializam em relatar ao vivo o caos na cidade dos carros, cada motorista tem sua “rota alternativa” para tentar “desviar do trânsito”, agentes da CET estão nos cruzamentos pedindo para os carros acelerarem, multas são aplicadas.

De repente, não existe mais horário de pico, rota alternativa ou qualquer forma de programar o dia, e o carro que comprou para chegar mais cedo no trabalho, já não serve de nada, o jeito é sair de casa cada dia mais cedo.

Pessoas e coisas nunca chegam na hora que deveriam. Prejuízo geral. Nos anos 90 inventaram uma profissão: em troca de um salário mínimo, um cara é contratado para levar coisas numa mochila trafegando por entre o congestionamento montado numa moto. Perfeito, logo são milhares de motoboys, em todas as ruas. A moto tinha que ser pequena para caber entre os retrovisores, a potência não precisava ser grande, e as parcelas mensais do financiamento tinham que ser baixas.

Escravos do tempo dos patrões, estes rapazes arrumaram inimigos por toda a cidade ao cortar o trânsito como jatos. Os taxistas, motoristas por excelência, os odeiam; moços, moças e senhores pacíficos os hostilizam, nas rádios se ouve reclamações como “um motoboy me fechou e bateu no meu retrovisor”.

Os motoristas de SP são profissionais, sabem o tempo dos semáforos, a localização dos radares, as ruas onde não há agentes da CET e é possível furar o rodízio, eles dominam as manhãs do asfalto. Enfurecem-se quando um amador entra no caminho e não desvia por uma brecha, dá passagem para um inimigo num cruzamento ou não aproveita o sinal amarelo. São pilotos treinados para ultrapassagens, curvas fechadas, pista molhada e retomadas rápidas. São orgulhosos.

Com a explosão da quantidade de motoboys nas ruas, profissionais mais corajosos e dirigindo veículos mais ágeis, a coisa ficou séria. Os motoristas teriam que dividir as ruas com estes moleques sem respeito. Os carros desrespeitam a vida ao passar pelo sinal amarelo (amarelo em sp é verde), “nada demais”, “numa boa”, todos se entendem; mas os motoboys chegam e desrespeitam este desrespeito, passam pelo vermelho, pelo cantinho, se precisar derrubam retrovisores. “Não desrespeitamos, agilizamos o fluxo”, poderiam dizer; “já os motoboys não agilizam, desrespeitam”. Ou seja, nosso desrespeito é uma coisa, o desrespeito deles é outra.

Resumindo, o problema não demorou a aparecer. Jovens, negros e pouco escolarizados, que formam esta legião de enjaquetados de cara preta de poluição e touca na cabeça, começaram a morrer aos punhados.

Taxas padronizadas de óbitos por acidentes envolvendo motocicletas
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Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde

Basta ir um dia aos INSS. Em cadeiras de rodas, com pinos nas pernas ou com os braços moídos eles estão lá, esperando o atendimento para “entrar na caixa”.

“Um novo arranque na sua vida”

Atualmente, nas pequenas cidades do Brasil a moto é o sonho de consumo de todo rapaz ou moça, não está exatamente ligado ao trabalho como no caso dos motoboys de São Paulo e sim ao lazer e ao tão sonhado salto social que o veículo mais acessível que o carro promete.

Taxas padronizadas de óbitos por acidentes envolvendo veículos
obitos_veiculos1.jpg
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde

De fato, as chances da vida de um motociclista ser “arrancada” pelo trânsito vêm crescendo, mas isso não está na propaganda da Honda.

Ainda há muita gente para morrer.

:: Evolução da Mortalidade por Violência no Brasil e Regiões, Ministério da Saúde.


2 comments Agosto 21, 2007

Bionegócios abastecem motores com álcool e sangue

Uma tonelada de cana-de-açúcar gera cerca de 40,5 litros de álcool combustível, cada cortador de cana precisa cortar no mínimo 12 toneladas por dia para manter-se “empregado”, para tal golpeia seu facão cerca de 120 mil vezes por dia.

Um carro que consume cerca de 1 litro de álcool por quilometro queima cerca de 0,024 toneladas de cana-de-açúcar por litro. Cada dia de trabalho de um cortador de cana (pelo menos 12 toneladas) abastece 486 litros, o suficiente para rodar uns 6318 km, com um custo ao consumidor de uns R$ 962 (média brasileira R$1,98/litro). Seria o consumo semestral de um carro que percorre cerca de 35 km diariamente - em São Paulo é algo como ir e voltar de uma residência num condomínio fechado com lazer completo ao trabalho na região central.

Os cortadores de cana ganham por produção, muitos pararam de produzir porque morreram exaustos no meio do canavial pensando em juntar algum dinheiro enquanto seus patrões almoçavam com representantes do BNDES; outros perderam um membro na lâmina do próprio facão enquanto palestras eram proferidas no World Trade Center paulistano; todos têm uma vida produtiva curta, seus corpos, levados ao limite, não conseguem continuar abastecendo automóveis por muitos anos.

“Para se ter um parâmetro, na década de 80, na greve de Guariba, os trabalhadores conquistaram um piso salarial para a categoria, de dois salários mínimos e meio. O piso é referência para os dias que ele não corta cana e baseia o cálculo dos direitos trabalhistas. Isso trazido para o salário de agora daria R$ 950,00. Mas hoje, uma pessoa que corta em média 12 toneladas por dia, ganha entre R$ 600,00 e 750,00 por mês. O piso salarial mais alto da categoria, que acaba de ser negociado pelos trabalhadores que fizeram greve no Estado de São Paulo, é de R$ 500,00, ou seja, um pouquinho mais que a metade do piso salarial da década de 80. De outro lado, a produtividade do trabalhador entre a década de 80 e hoje duplicou: era de seis toneladas de cana por homem, por dia. Agora é de 12 toneladas por homem, por dia. Quem não corta dez é mandado embora.

Portanto, a gente poderia tomar como indicador de salário atual o piso salarial da década de 80. Principalmente num momento em que o álcool é a vedete mundial. A cana está na crista da onda, mas ela tem um enorme passivo trabalhista. Por que é que não se conserta isso? Os usineiros dizem que não podem pagar por produção porque ´sempre foi assim`. Mas não é verdade, uma parte da produção era escrava e os escravos não ganhavam por produção.” (Francisco Alves, em entrevista a Beatriz Camargo, em Repórter Brasil).

Entrevista completa: Pesquisador prega extinção do trabalho por produção

Relacionados:
Religioso alerta que incentivo à plantação de cana para o etanol pode aumentar trabalho escravo , por Yara Aquino, Repórter da Agência Brasil
Ação recorde resgata 1106 trabalhadores da cana no Pará, por Iberê Thenório e Leonardo Sakamoto para Repórter Brasil.
Trabalhadores escravos libertados relatam vida na “prisão”, Por Isabela Vieira, Repórter da Agência Brasil.


1 comment Agosto 10, 2007

Túneis, Poluição, Ossos

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Direitos reservados. Alexandre Orion. ossário.net.

Programas do estilo “As Maravilhas da engenharia mundial”, em destaque nos canais de TV que vendem conhecimento express trazem maravilhosas pontes, impressionantes viadutos, monstruosos túneis e tecnológicas rodovias como exemplos da magnitude do conhecimento do Homem. Entrecortar montanhas, cavar sob canais, transitar sobre rios. O poder do cérebro desenvolvido e do dedo opositor desse animal é infinito.

Seu melhor amigo, o automóvel, está quase sempre por trás destas grandes obras da engenharia moderna; quando não, estão seus amigos, petróleo e territórios. Na cidade, o ar, a água e a vida vêm depois. Árvores, morros, lagos e rios existem muitos. Removamo-os! O trânsito precisa fluir, é preciso ligar um vazio ao outro, ligar condomínios fechados a office buldings, shopping centers a mega stores, ligar uma garagem a outra garagem, ligar um subsolo ao outro, um congestionamento ao outro.

Durante o dia, os cavaleiros do apocalipse motorizado marcham lentamente; nas madrugadas, em alta velocidade. Em qualquer horário, espalham o medo por onde passam. Como em qualquer batalha, a batalha do trânsito entrega a dor dos ferimentos, a tristeza das seqüelas e a tragédia da morte violenta a milhares de famílias. Pedestres, ciclistas, qualquer um que não vista a armadura de aço, porém não consegue se manter alheio ao conflito e é uma potencial vítima, um alvo civil.

Seres mortos por falta de ar limpo é o lado menos visível desta guerra. Os mais vulneráveis, obviamente, morrem em maior quantidade. São os filhotes, eles crescem com pulmões sujos e os narizes entupidos, trancados em casa e em escolas, sofrem de alergias. Seus pais desperdiçam horas de carinho no trânsito, a rua é um lugar perigoso e as outras crianças também estão em suas casas com a TV ligada. Para uma minoria, o carro faz parte da rotina, de um espaço fechado ao outro, são levados do inglês para a natação, da escola para a praça de alimentação, semanalmente para playland o shopping center.

Os cavaleiros do apocalipse motorizado respiram o mesmo ar que todos os demais seres. Filhotes da classe média possuidora de convênios médicos e filhotes da periferia desarborizada amontoados em UBSs (Unidade Básica de Saúde) lotadas respiram o mesmo ar. Os cavaleiros galopam com a chave da culpa por mortes desligada pelo grupo indústria automobilística quebradora de recordes + agências de publicidade auto-regulamentadas + governo omisso e sua busca por maior PIB. Os pedetres e usuários do transporte público, por sua vez, contam com o mesmo grupo de desligamento: a indústria promete status; propagandas, sucesso em forma de mulheres, amigos, sol e virilidade; governos, a idéia de que é possível adquirir direitos comprando produtos.

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Direitos reservados. Alexandre Orion. ossário.net.

Esta lógica que criminaliza o transporte público e humilha seu usuário, fica bem resumida no trabalho de Alexandre Orion. Num mundo sujo, com lugares desabitados, sem serventia outra senão a de servir e venerar o automóvel, o maior desaforo é perceber estes locais, estar neles desarmado, caminhar por eles. Quando Alexandre, mais do que estar desarmado de um automóvel nestes locais, propõe realizar atividades humanas milenares que buscam pensar o ser, como o desenho, o afronte é evidente.

Seus desenhos de caveiras não utilizam tintas, cores ou relevos. Neste local morto que é o túnel de uma grande cidade, desenhar figuras de morte utilizando panos brancos é uma desobediência intolerável. O caminhão-pipa é chamado para lavar e apagar este cemitério de rostos.

Tão interessante quanto seu trabalho foi a reação oficial, que promoveu a limpeza dos desenhos (que de qualquer forma desapareceriam com as novas camadas de poluição por vir). A ação da prefeitura que lavou o túnel para “cobrir” a sujeira dos desenhos, conseguiu resumir a ordem geral: deixar poluir, deixar morrer e matar, apagar as expressões em contrário. O artista diz em seu relato, “eles anularam a mensagem criando uma grande área limpa e deixando o restante do túnel sujo como deve ser. O crime passou a ser outro: censura! Rs”. Desta “limpeza”, Alexandre gerou mais uma obra, produziu uma tinta pigmentada com poluição (partículas sedimentadas da lavagem).

“Estas ruas são feitas para dirigir tão rapidamente do trabalho para casa e vice-versa. São ruas para passar, não para viver” (André Gorz, A ideologia do automóvel). Citação na página principal de ossário.net.

:: Vídeo Ossário
:: Ossário, Alexandre Orion
:: A Conquista do Espaço


4 comments Agosto 8, 2007

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