Archive for Junho, 2007

Espírito público e transporte público - 2

O consumo das famílias aumentou, como comemorou hoje Mirian Leitão na rádio CBN. É o sonho da ascensão social que nos alimenta. Todos se esforçam sinceramente para ter uma vida mais digna e mais confortável, mais ricos moraríamos num bairro melhor, teríamos dentes melhores e acesso a direitos, seríamos cidadãos mais graduados. Caímos nas mentiras da imprensa e na omissão do Estado. Todos perdem com cursos que não educam, perdem com parcelamentos de carros que ficarão parados no trânsito, com planos de saúde que não dedicam cuidados.

“O país vai crescer”. A frase mais dita pelos governantes brasileiros de qualquer época. É isso que buscamos. É isso que os “analistas econômicos” nos dizem todos os dias. Todos comprariam bens de conforto e a economia se manteria aquecida. Haveriam carros de luxo, claro, mas todos teriam pelo menos seu Fiat Pálio 1.0.

O sonho da classe média do carro na garagem é possível? É isso que queremos? Só se o país crescer territorialmente também. São Paulo se espalharia até Salvador, formando uma única Região Metropolitana, o manto de asfalto das cidades cobriria a América do Sul, integrando finalmente o continente, viadutos facilitariam a vida daqueles que trabalham em Buenos Aires e moram num condomínio fechado no Mato Grosso do Sul.

Em dia de greve do transporte público a latente certeza de que o sonho é impossível não é lembrada pela grande imprensa. A greve é boa, pois alimenta o noticiário com imagens de longas filas, trânsito parado e entrevistas com as frases de sempre, “eu acho um desrespeito”, “faz três horas que saí de casa”…

Numa atmosfera onde a solução para problemas públicos acontece na desesperada luta privada de cada família, o ataque do governo e da imprensa é pela defesa do privado, contra a luta qualquer de categoria que tente permanecer unida lutando coletivamente pela solução de problemas coletivos.

Espírito público e transporte público - 1

Technorati tags: metro, greve.


Add comment Junho 14, 2007

Espírito público e transporte público - 1

Dia de paralisação do Metrô de São Paulo. O prefeito de São Paulo, em entrevista, considerou que “faltou espírito público” aos metroviários.

Toda paralisação de serviço público é a mesma historinha. A preocupação com o que é público desperta. Governantes, ou melhor, administradores como eles se denominam, disparam frases de efeito e partem em defesa do direito público.

Na verdade, toda essa preocupação decorre do fato de, por algumas horas, o espaço público privatizado pelos automóveis ter sido “invadido” pelo público. Cada um estava no seu lugar, quem tem carro, parado no trânsito, saindo às 7:30 para chegar às 9:00 no escritório; e quem não tem, dentro do ônibus, parado no trânsito causado pelo excesso de carros, esmagado nos trens, saltando de um modo de transporte para outro.

A greve bagunça tudo, um contingente que não possui carro ou deixa o carro em casa durante a semana, hoje está nas ruas. É essa a preocupação dos governantes e da imprensa que, com helicópteros, cobre o “caos” indicando caminhos alternativos ao paulistano.

A população que utiliza o transporte público, ontem esmagada nos trens, escondida nos subterrâneos, hoje, dia de paralisação, superlota ônibus, lotações, mostra seu rosto nas ruas. Incomodam ao exercer durante um dia o “direito” que todos os motoristas todos os dias acham legítimo: ocupar irracionalmente o espaço público na tentativa de chegar ao trabalho, escola etc.

A frase de Kassab que considera os metroviários sem espírito público, significa: como podem os metroviários levarem tanta gente às ruas e atrapalharem o trânsito de veículos privados em vias públicas?

Technorati tags: metro, kassab, greve.


1 comment Junho 14, 2007

Não reduzir na lombada é hilário, aceita CONAR

“Verdades sobre o Gol n° 72″

Representação n° 61/07
Autor: Conar, a partir de queixa de consumidor
Anunciante e agência: Volkswagen e Almap/BBDO
Relator: João Monteiro de Barros Neto
Segunda Câmara
Decisão: Arquivamento
Fundamento: Artigo 27, nº 1, letra “a” do Rice

Um consumidor carioca e uma consumidora de Cascavel queixaram-se contra comercial de TV da Volkswagen que afirma que o “O Gol não passa na lombada. A lombada foge antes” e recomenda que o consumidor “use sem dó”. Segundo as denúncias, a peça faz sugestão de direção em velocidade excessiva e desrespeito às regras de trânsito.

Anunciante e agência esclareceram que a peça foi inspirada em uma brincadeira que circula na internet sobre “As verdades sobre Chuck Norris”, onde o ator é citado com feitos fantasiosos e hilários, sem nenhuma conotação negativa ou afronta ao Código.

O relator concordou com os argumentos da defesa e recomendou o arquivamento da representação, aceito por maioria de votos.

Fonte: resumo dos acórdãos julgados durante o mês de abril pelo Conselho de Ética do Conar em reunião realizada dia 19, em São Paulo.

É verdade, os pedestres são obrigados a assistir filmes de Chuck Norris. São a maioria da população: não têm carro, nem dinheiro para o cinema, também não podem dar um passeio com a família, porque no bairro não há onde passear de graça, são obrigados a encarar os enfadonhos filmes de ação da Globo e SBT nas noites de descanso.

Os filhos e pais do pedestre de meia idade não têm a aptidão física exigida pelas ruas. O pedestre tenta defender os seus, educando-os a sobreviver na grande cidade. Aos idosos dá conselhos de cuidado, já que perderam a capacidade de correr para desviar de automóveis a 60km/h. Aos filhos dedica atenção e advertências, eles ainda estão aprendendo - aos gritos de “não vai pra rua!” - que o mundo é delimitado, que a parte do universo onde o chão é preto de asfalto é proibido aos que insistem em caminhar.

O pedestre de meia idade não confia em Chuck Norris, não confia num país onde agências de publicidade se auto-regulamentam. Ele não tem internet e não entendeu os mencionados “feitos hilários” da peça publicitária. Sabe que estas referências argumentadas pelo anunciante estão lá no intervalo comercial de rede de TV sob concessão pública e acha que um equipamento de segurança, como a lombada, não deveria correr de medo de um carro da Volkswagen.

Technorati tags: carro, volkswagen, conar.


5 comments Junho 11, 2007

Estudar o problema ignorando as soluções

road_traffic.jpg
Foto: wjpbennett. Alguns direitos reservados.

Está disponível uma tese de doutorado do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétrica da Poli que diz que em rodovias em que o tráfego de automóveis é intenso, adotar uma velocidade baixa, pode reduzir o congestionamento.

O pesquisador adaptou um software usado em linhas de produção e automação industrial para simular o trânsito num trecho de 3 km de rodovia.

O estudo descobriu uma daquelas coisas que não nos são ensinadas, mas todos sabemos por observação. Numa montoeira de gente, num espaço delimitado, não adianta sair todo mundo correndo na mesma direção, ao mesmo tempo. É melhor ir um pouco de cada vez.

Os 2.990 metros iniciais do percurso em estudo foram destinados à velocidade controlada. Nos 10 metros finais do percurso foi considerada uma obstrução parcial de uma das faixas da rodovia, simulando um acidente ou obra em andamento.

Os “acidentes de trânsito”, apesar de continuarem levando este nome, não são acontecimentos casuais, fortuitos, inesperados. Acontecem todos os dias do ano, todas as horas do dia. Não são tragédias que podem gerar alguma tristeza aos alheios. São obstáculos que atrapalham a vida dos motoristas durante o dia, são estatísticas no final do mês. São fatos tão inesperados e raros que são considerados em simulações.

O pesquisador disse a Agência FAPESP:

“Tradicionalmente utilizado em sistemas de filas para otimizar a produção industrial e reduzir as perdas, o software foi adaptado para simular o tráfego veicular. É como se um pedaço de estrada fosse uma máquina que produz e consome veículos por minuto”

A engenharia é maravilhosa. Uma máquina, uma estrada, pessoas. Qualquer unidade pode ser considerada dentro de um sistema, ser estudada, calculada, e, portanto, é passível de controle e melhorias.

A imagem do simulador de linhas de produção consumindo peças e do simulador de estradas consumindo veículos poderia ser natural à engenharia, se não fossem veículos dirigidos por pessoas, se não fossem traumatismos cranianos as “obstruções parciais” da via, se não fossem pessoas queridas por alguém as “perdas” da linha.

O esforço público em periodicamente encontrar paliativos à questão do trânsito é cínico, mas tão cínico quanto em outras áreas onde a iniciativa pública é essencial. A produção científica dedicada à simples demonstração de determinada técnica, que se venda diante das demais soluções possíveis conhecidas, que não faz mais que adiar a possibilidade de solução é odiosa.

O estudo, em vídeo abaixo, chamado Eficiência do transporte público e do privado não utiliza um software de linha de montagem industrial para simulação, utiliza um órgão que permite detectar a luz e transformar essa percepção em impulsos eléctricos, o olho.

As soluções estão aí para quem quer ver. Não sou engenheiro, mas parecem muito mais simples.

Referências:
Controle de congestionamento veicular, de Plínio Castrucci; Roberto Godoy. IN Revista IEEE América Latina, Volume 4, Março de 2006.
Trânsito livre, por Thiago Romero. Artigo da Agência FAPESP.


1 comment Junho 5, 2007

Seminário sobre impactos das mudanças climáticas em SP

Na próxima quarta-feira, dia 06/06, acontece o seminário Impactos das Mudanças Climáticas e Cenários no Estado de São Paulo, na sede da CETESB, Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental.

Os assuntos são: possíveis impactos das mudanças climáticas na agricultura; biodiversidade; nível do mar; saúde humana no Estado; conclusões dos Relatórios I, II e III do IPCC; articulação das políticas públicas; história das mudanças em São Paulo; e outros.

Programação e informações na página do Instituto de Estudos Avançados da USP


Add comment Junho 4, 2007

7° Festival de cinema sobre bicicletas em Nova Iorque

O Bicycle Film Festival celebra a bicicleta em diversas cidades do mundo. Todo tipo de bicicleta e todo tipo de ciclista, de critical mass, BMX, mountain bike, até pólo sobre bicicletas. O importante é pedalar e se divertir.

A celebração acontece através das formas de expressão mais bonitas do Homem: música, artes plásticas, esporte, festas e, claro, muito filme. O lema é algo como “todos os aspectos do ciclismo juntos defendem e fortalecem que o transporte sobre duas rodas é viável”.

bike_01.jpg
Foto: suckapants. Direitos Reservados.

bike_02.jpg
Foto: suckapants. Direitos Reservados.

bike_06.jpg
Foto: suckapants. Direitos Reservados.

bike_04.jpg
Foto: suckapants. Direitos Reservados.

bike_05.jpg
Foto: suckapants. Direitos Reservados.

::: Mais fotos do Bicycle Film Festival 2007 - NYC :::

Fotos: Sucka Pants. (c) Direitos Reservados. Reproduzidos aqui com autorização do autor.

sucka pants blog | everydayilive blog | suckapants no flickr | everydauilive no flickr | fecalface new york

Technorati tags: bike, nyc, cinema.


Add comment Junho 1, 2007

Next Posts


Categorias

Etiquetas

Últimos posts

Arquivos

Links

Licença

Esta obra de panoptico é licenciada sob uma Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License, exceto quando há referência ao autor/autora original.

Permissões fora do escopo desta licença devem ser autorizadas por http://panoptico.wordpress.com.

Panóptico

Álbum de imagens

Contato: panopticosp(arroba)yahoo (ponto)com(ponto)br

adfreebutton.jpg

decalogoblogueiro.jpg

RSS Notícias CMI