Estudar o problema ignorando as soluções

Junho 5, 2007

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Foto: wjpbennett. Alguns direitos reservados.

Está disponível uma tese de doutorado do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétrica da Poli que diz que em rodovias em que o tráfego de automóveis é intenso, adotar uma velocidade baixa, pode reduzir o congestionamento.

O pesquisador adaptou um software usado em linhas de produção e automação industrial para simular o trânsito num trecho de 3 km de rodovia.

O estudo descobriu uma daquelas coisas que não nos são ensinadas, mas todos sabemos por observação. Numa montoeira de gente, num espaço delimitado, não adianta sair todo mundo correndo na mesma direção, ao mesmo tempo. É melhor ir um pouco de cada vez.

Os 2.990 metros iniciais do percurso em estudo foram destinados à velocidade controlada. Nos 10 metros finais do percurso foi considerada uma obstrução parcial de uma das faixas da rodovia, simulando um acidente ou obra em andamento.

Os “acidentes de trânsito”, apesar de continuarem levando este nome, não são acontecimentos casuais, fortuitos, inesperados. Acontecem todos os dias do ano, todas as horas do dia. Não são tragédias que podem gerar alguma tristeza aos alheios. São obstáculos que atrapalham a vida dos motoristas durante o dia, são estatísticas no final do mês. São fatos tão inesperados e raros que são considerados em simulações.

O pesquisador disse a Agência FAPESP:

“Tradicionalmente utilizado em sistemas de filas para otimizar a produção industrial e reduzir as perdas, o software foi adaptado para simular o tráfego veicular. É como se um pedaço de estrada fosse uma máquina que produz e consome veículos por minuto”

A engenharia é maravilhosa. Uma máquina, uma estrada, pessoas. Qualquer unidade pode ser considerada dentro de um sistema, ser estudada, calculada, e, portanto, é passível de controle e melhorias.

A imagem do simulador de linhas de produção consumindo peças e do simulador de estradas consumindo veículos poderia ser natural à engenharia, se não fossem veículos dirigidos por pessoas, se não fossem traumatismos cranianos as “obstruções parciais” da via, se não fossem pessoas queridas por alguém as “perdas” da linha.

O esforço público em periodicamente encontrar paliativos à questão do trânsito é cínico, mas tão cínico quanto em outras áreas onde a iniciativa pública é essencial. A produção científica dedicada à simples demonstração de determinada técnica, que se venda diante das demais soluções possíveis conhecidas, que não faz mais que adiar a possibilidade de solução é odiosa.

O estudo, em vídeo abaixo, chamado Eficiência do transporte público e do privado não utiliza um software de linha de montagem industrial para simulação, utiliza um órgão que permite detectar a luz e transformar essa percepção em impulsos eléctricos, o olho.

As soluções estão aí para quem quer ver. Não sou engenheiro, mas parecem muito mais simples.

Referências:
Controle de congestionamento veicular, de Plínio Castrucci; Roberto Godoy. IN Revista IEEE América Latina, Volume 4, Março de 2006.
Trânsito livre, por Thiago Romero. Artigo da Agência FAPESP.

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