Humilhação larga
Assistindo o vídeo desta revoltante “ação” publicitária Ombros largos, a explicação sobre a “solução”, o “público-alvo” e os comentários sobre a eficiência do conceito, lembro imediatamente de uma imagem um tanto antiga: o garoto engraxando os sapatos de um senhor austero e trabalhador, que do alto de seu status bate-papo no bar enquanto contempla de forma natural o trabalho daquele, que agachado aos seus pés, limpa seus sapatos. Como alguém se sente confortável com uma pessoa aos seus pés lhe limpando?
As condições de trabalho que conhecemos hoje são drásticas, mas a imagem de uma pessoa carregando outra nos ombros é talvez mais forte do aquelas de trabalho em locais insalubres etc. Embute um sadismo social, impinge uma humilhação difícil de medir.
Pensando bem, já estamos em outro ponto (o sadismo pressupõe que o protagonista que será humilhado tenha algum valor, justamente para que este valor possa lhe ser retirado - dentro de um ritual), o que assistimos é um desprezo completo pelo outro. Nas cenas é possível perceber a naturalidade de atitudes, a rapidez no contrato do “serviço” de carga, as amigas que ao se divertirem simplesmente ignoram onde estão sentadas; bom, na verdade, o fato de ser uma pessoa - uma pessoa grande, diferente, bizarra, objeto de fetiche - torna tudo mais divertido.
Não sei exatamente o que poderia passar pela cabeça de um rapaz contratado para carregar nos ombros pessoas que se divertem num show. Seria preciso um desprendimento fenomenal para achar engraçada a “brincadeira”, mas certamente fez parte da estratégia mental desses rapazes entrar na brincadeira para não ficarem loucos ao se reconhecerem como burro de carga.
Como foi possível formular e concretizar uma propaganda assim? A questão talvez não seja nem como, mas quando, pois tal idéia só poderia surgir e se concretizar nos dias de hoje.
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2 comments Junho 27, 2007









