Foi uma época franciscana na minha vida, não por querer, mas porque eu era duro, porque trabalho num jornal de sete da manhã ao meio dia, fazia tudo, desde varrer jornal, mexer um pouco na revisão (…)
Sei que dava para o seguinte: dava para almoçar no SAPS, que era no Anhangabaú, e jantar média e pão com manteiga, com muita dignidade. Até me lembro uma vez que estava na rua Marconi, estava o Fúlvio Abramo perto de mim e a Radah. Ela era uma boa moça, ela sempre teve vocação de grande senhora. E eu estava lá, tomando a minha média, um pão com manteiga e o Fúlvio disse: “Pô, mas é só isso?” Eu falei: “Esta é minha janta, numa boa”. Ela me olhou e não queria acreditar.
Tinha tempo para poder estudar, para poder ler. É nesse sentido que a biblioteca municipal foi a minha outra universidade. O Florestan fazia supletivo e freqüentava a biblioteca. Na época, ele já tinha deixado o trabalho de garçom no Pingüim, mas a gente freqüentava porque a comida era barata, e ele garantia uma parte do valor pra gente.
Entrevista de Maurício Tragtenberg cedida a Sonia Marrach IN MARRACH, Sonia Alem (org). Memórias de um autodidata no Brasil. Escuta-UNESP, São Paulo, 1999.
Os depoimentos de Hamilton Octávio de Souza e Vasco Oscar Nunes sobre a Folha de S. Paulo e Otávio Frias, recém falecido, foram disponibilizados aqui.
Quando começou a queima de carros da “Folha de São Paulo” como reação ao apoio à repressão policial em São Paulo, a “Empresa” criou, junto à portaria na Alameda Barão de Limeira, uma Delegacia policial “camuflada”
“Têm muito bar vagabundo, essas saunas, esses cinemas pornô que são prostíbulos. Temos que fechar tudo isso.”
Declaração de Andrea Matarazzo para Folha de S. Paulo, 12/05/2007.
Andrea Matarazzo, bom Andrea Matarazzo é um sujeito requintado, para ele “bar vagabundo” ter que ser fechado, para ele cerveja gelada, mesa de lata e copinho de pinga 51 não pode; vinho climatizado, cachaça mineira, mesinha de madeira e azulejinho português pode. Até aí, uma visão elitista e higienista de mundo como aquelas que choveram nos comentários do youtube, CMI e blogs sobre o caso da confusão causada pela PM durante show dos Racionais na Virada Cultural. Coisa preocupante.
A coisa deixa de ser apenas preocupante porque o sujeito é secretário municipal das Subprefeituras de SP e também subprefeito da Sé. Encarna uma espécie de secretário pop, que ao mesmo tempo que pavimenta o caminho para sua carreira, faz as vezes de assessor de impressa da prefeitura criando factóides mensalmente. É querido entre seus pares e porta a voz dos milhares de fascistas, xenófobos e racistas que habitam a cidade e que vira e mexe, em casos como o dos Racionais na Virada Cultural, deixam vir à tona seu ódio.
“É preciso um novo projeto para o recolhimento de lixo reciclável. O padre [Júlio] Lancelotti [militante ligado a cooperativas de catadores] que me desculpe, mas eles são um problema. (…) Bares como o Royal [com ingresso a R$ 80 para homem e R$ 40 para mulher] são importantes para a revitalização. Os moradores é que terão de se adaptar, instalar janelas anti-ruído”
Claro, um projeto. Uma ong seria contratada através de uma transparente licitação; um estudo de viabilidade e planejamento assinado por reconhecidos estudiosos seria entregue em 6 meses; o coquetel de lançamento marcado no centro cultural de uma grande empresa; durante o lançamento, professores universitários teceriam elogios ao projeto ressaltando seu caráter inovador, um coordenador lembraria sua admiração pela coragem do secretário municipal, sem a qual o projeto não seria possível, juntamente com os canapés e taças de vinho, impressos seriam distribuídos aos convidados; a assessoria de impressa se encarregaria de conseguir uma página nos jornais de maior circulação; a agência de marketing contratada bolaria um selo de responsabilidade social; as empresas envolvidas recolheriam o lucro de sua iniciativa socialmente responsável; poucos semestres depois seriam apresentados os resultados do projeto ao BNDES, BID, Prefeitura e demais financiadores; a parcela final do contrato paga às ongs e consultores, e, então, o projeto encerrado.
Para Andrea Matarazzo, deveria ter sido assim. Não foi. Uma cidade cheia de desempregados e lixo reciclável nas ruas; os primeiros cansados e desesperados metem a mão na massa e colocam tudo o que uma carroça puxada por eles mesmos pode comportar e vendem o material por poucos reais a atravessadores. As famílias conseguem se manter vivas.
Outros trabalhadores aderem a profissão, outras famílias sobrevivem. Em meio ao carnaval, ano novo ou qualquer festa em que latas de alumínio sejam descartadas, lá estão famílias com sacos nas costas. O país de torna um dos maiores recicladores do mundo, sem qualquer incentivo ou reconhecimento do Estado, seu protetor.
Suas carroças são movidas a arroz e feijão, construídas com um eixo, dois pneus, sucata, um par de chinelos e músculos, mais nada. Recebem buzinadas e gritos vindos de carros com ar-condicionado movidos por motor à combustão.
Aprenderam a lidar com esse preconceito e intolerância. Porém, quando um governante declara em jornais que trabalhadores autônomos (responsáveis pela coleta seletiva que a prefeitura não faz) são um problema, quando resolve tornar os xingamentos e buzinadas política pública oficial e decreta a “ilegalidade” dos trabalhadores, apreendendo carroças e os insultando passa-se a fronteira do preconceito e caminha-se para a política exterminadora, que cassa o direito universal ao trabalho, à sobrevivência e à manutenção ambiental da cidade.
A idéia de enquadrar e engessar idéias autônomas, independentes e criativas que deram muito certo é história antiga, agora parece ser a vez dos catadores de recicláveis. Projetos onde “a meta é legalizar os catadores” estão por aí
A ação dos policiais na praça da Sé e em outras tantas tem um lastro histórico que não custa rememorar.
“As classes pobres e viciosas sempre foram e hão de ser sempre a mais abundante casa de toda sorte de malfeitorias: são elas que se designam mais propriamente sob o título de “classes perigosas”; pois quando mesmo o vício não é acompanhado pelo crime, só o fato de aliar-se à pobreza no mesmo indivíduo constitui um justo motivo de terror para a sociedade. O perigo social cresce e torna-se de mais a mais ameaçador, à medida que o pobre deteriora a sua condição pelo vício e, o pior, pela ociosidade”
Anais da Câmara dos Deputados, vol.3, p.73, sessão de 10 de junho de 1888.
reprodução: publicidade, cardeno Esporte, Folha de S. Paulo, 06/05/07
Meninas ganham panelinhas e bonecas brancas e loiras, meninos ganham carrinhos, ferramentas e bolas. Brinquedos simples que nos ensinam desde cedo que cada um tem seu lugar. Crianças logo percebemos que o sexo não é apenas uma diferença biológica, os gêneros são dois e tem poderes diferentes (preferências sexuais que escapem das duas possibilidades devem ser combatidas).
O homem pode mais que a mulher. Quando cresce o garotinho pode adquirir bens que incrementem sua virilidade. Um carro veloz com cara de mau é um dos preferidos. Em vez de espernear para a mãe comprar o carrinho na loja de brinquedos, agora o marmanjo trabalha 8 horas diárias e vai atrás de um financiamento.
A postura ereta, dedo polegar opositor, raciocínio, curiosidade, discernimento, linguagem e cultura que foram vendidas ao capitalista durante 40 horas semanais são investidas num automóvel, que traz consigo a possibilidade de aumentar sua imagem social e conquistar poder e status social, ou seja, turbinar-se.
À meia-noite a praça da Sé estava tomada de pessoas de diferentes classes, idades e cores.
Horas depois, treinada para desrespeitar primeiro, agredir depois e matar no final (a ordem dos fatores não é essa a depender do perfil da vítima), a Polícia Militar encontrou um motivo para demonstrar sua força.
Os Racionais são um dos maiores e mais respeitados grupos do Brasil. São odiados pela polícia, claro. São narradores do que acontece na periferia de São Paulo e, conseqüentemente, denunciantes do sistema de violência que a polícia mantém contra a enorme maioria da população, negros e pobres sem acesso a direitos.
Passeatas, protestos, shows e qualquer tipo de manifestação dependem da autorização dos donos da cidade, a Polícia Militar. A polícia militar faz parte de um amplo grupo criminoso - que conta com a polícia metropolitana, grupos especiais e polícia civil - e está sob o controle da Secretaria de Segurança Pública.
O centro de São Paulo, usual reduto de chacinas de moradores de rua cometidas pela polícia pública e privada, estava tomado pela população, a polícia nada poderia fazer, mas deu um jeito e fez.
A grande mídia repetiu o nome Racionais MC’s para todos os lados, a Globo News, por exemplo, narrou que “o tumulto começou quando o grupo cantava uma música com referências a polícia militar”. Algo bastante diferente dos apelos pelo bom senso e racionalidade que se vê o vocalista do grupo, Mano Brown, dizendo durante a confusão.
O tom de que pretos e pobres não sabem se divertir e são um bando de maloqueiros está sendo difundido em massa pela mídia corporativa. Imagens das câmeras de segurança (aquelas que nunca filmam as agressões policiais) dão “outros ângulos do tumulto”, segundo a Globo. Para a Rede “PMs com uniformes de patrulhamento, formando um cordão de proteção na frente das lojas, logo depois uma parte do público se vira contra os policiais e começa a provocá-los, os PMs se afastam, o grupo sobe numa banca de jornal”.
De fato, o ângulo revela que a polícia serve exclusivamente à proteção da propriedade privada, de que em minoria recua, de que em maioria e armada pode acabar com a festa numa praça pública e que para conter um grupo vândalos, está disposta a aterrorizar 30 mil pessoas, empunhando armas, atirando balas de borracha e jogando bombas de gás lacrimogêneo de forma generalizada.
A PM de São Paulo não tem comando e é absolutamente despreparada para lidar com a população que deveria proteger. Sente-se parte de uma outra esfera, de uma seita particular com regras próprias, não é uma instituição pública de repressão e controle, mas sim uma instituição de julgamento sumário. Decide que aquele é suspeito, agride; que aquele é desordeiro, espanca; que aquele é bandido, mata; que aquele é doutor, favorece.
A PM de SP, a cada dia, se especializa em acabar com a festa de qualquer pessoa que queira exercer seus direitos e se manifestar em grupo na cidade de São Paulo. A PM entende que muita gente é igual a bagunça e bagunça não pode; se não pode, bate, prende e bota para correr. Não há limites, a PM acaba com os eventos patrocinados pelo próprio Estado.
A nota da Secretária Estadual de Segurança, como sempre, não diz nada. A nota “PM contém tumulto e depredações na Praça da Sé”, não cita os disparos de balas de borracha indiscriminados à curta distância, nem a atitude irresponsável de colocar milhares de pessoas para correr desesperadas pelas ruas.
Se a prefeitura da cidade mostrou pela terceira vez que é possível um evento cultural variado durante 24 horas, se a população mostrou que está disposta a ocupar as ruas, a PM mostrou que cultiva regras e ações próprias e violentas, e assim pretende continuar.
A imprensa é uma merda, isso todo mundo já comprovou. Aquela sujeira que fica nas mãos depois da leitura do jornal não é à toa, manchar as mãos de sangue manuseando uma revista é comum.
A imprensa escrita tem história e gente muita boa passou por jornais, na maioria dos casos o espaço para essas figuras eram suas colunas, hoje, cada vez mais, pautadas pela linha editorial do jornal, que sempre foi uma só: vender mais, ganhar mais.
Com o avanço da internet muita coisa mudou, fontes independentes estão por aí e a informação democratizou-se absurdamente. De outro lado, como que diante de uma espécie de TV, um bocado de gente “abre a internet” e acessa um portal para clicar em qualquer coisa que lhe pareça interessante, zapeia pelo teclado.
Esses portais, através dos quais a internet se popularizou por aqui, claro, não têm o histórico - para o bem e para o mal - acumulado pelos meios tradicionais. Em busca de audiência a informação na internet tem menos tempo que na TV. Ninguém achava que isso seria possível, mas os portais conseguiram, têm notícias mais curtas e superficiais que as do Jornal Nacional.
Eu já fiz alguns contatos com o portal e até hoje não fizeram nada pra mudar então resolvi me manifestar. Publico aqui a partir de hoje, todas essas pérolas do Terra até que isso pare. Abraço!
Um contato com a Skol, por exemplo, patrocinadora de uma sessão do site recebeu uma espécie de não-resposta:
No caso, toda divulgação da Cia [Skol], é de responsabilidade da agência de publicidade que cuida da marca Skol.
As imagens do Terra que ele captura e coloca no blog são auto-explicativas. Grande parte coloca sob o rótulo “Diversão” tristeza, tragédias e mortes. O blog é uma reunião de pérolas do desrespeito do portal Terra ao leitor e à vida dos noticiados.
O presidente Rafael Correa, em vídeo disponível no You Tube, incentiva o uso de software livre e defende sua importância para o desenvolvimento, integração e libertação da América Latina.
“Por isso é importante que todos tenhamos o software livre. Dessa maneira, garantiremos a soberania de nossos Estados, dependeremos de nossas próprias forças, não de forças externas à região”
Resultado da sessão do CONAR (Conselho Nacional de Auto-regulamentação publicitária) de 19/04/2007:
Representação Nº 051/07, “Novo Fiat Palio – Toda emoção está aqui”. Resultado: alteração por maioria de votos.
Uma pessoa que gosta de arriscar a vida, pode enfrentar um furacão, uma tempestade em alto-mar ou dirigir um carro em alta velocidade.
A maioria das pessoas prefere dirigir carros em alta velocidade, mesmo porque carros que atingem 180km/h (muito acima do permitido em qualquer rodovia do país) estão disponíveis para quem possa pagar por um. Basta um curso que ensina a dar setas, pisar no freio e estacionar o veículo sem raspar o pneu na guia.
Incentivos a direção perigosa são exibidos todos os dias pelas redes de TV. Desde de criança, carrinhos de brinquedo com adereços como fogos nas laterais habitam e alimentam nossas mentes.
Recentemente numa dessas propagandas, um jovem saía de um furacão e caía direto dentro de um Fiat Palio a sei lá que velocidade, a idéia era que estar dentro de um carro provoca emoção similiar a de estar no meio de um tormenta ou de um mar revolto.
Público alvo - compradores apegados a alta velocidade: jovens. Público alvo - assassinados por carros em disparada: qualquer pessoa que esteja deslocando-se pelas ruas.