Para Andrea Matarazzo catadores são problema

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“Têm muito bar vagabundo, essas saunas, esses cinemas pornô que são prostíbulos. Temos que fechar tudo isso.”
Declaração de Andrea Matarazzo para Folha de S. Paulo, 12/05/2007.
Andrea Matarazzo, bom Andrea Matarazzo é um sujeito requintado, para ele “bar vagabundo” ter que ser fechado, para ele cerveja gelada, mesa de lata e copinho de pinga 51 não pode; vinho climatizado, cachaça mineira, mesinha de madeira e azulejinho português pode. Até aí, uma visão elitista e higienista de mundo como aquelas que choveram nos comentários do youtube, CMI e blogs sobre o caso da confusão causada pela PM durante show dos Racionais na Virada Cultural. Coisa preocupante.
A coisa deixa de ser apenas preocupante porque o sujeito é secretário municipal das Subprefeituras de SP e também subprefeito da Sé. Encarna uma espécie de secretário pop, que ao mesmo tempo que pavimenta o caminho para sua carreira, faz as vezes de assessor de impressa da prefeitura criando factóides mensalmente. É querido entre seus pares e porta a voz dos milhares de fascistas, xenófobos e racistas que habitam a cidade e que vira e mexe, em casos como o dos Racionais na Virada Cultural, deixam vir à tona seu ódio.
“É preciso um novo projeto para o recolhimento de lixo reciclável. O padre [Júlio] Lancelotti [militante ligado a cooperativas de catadores] que me desculpe, mas eles são um problema. (…) Bares como o Royal [com ingresso a R$ 80 para homem e R$ 40 para mulher] são importantes para a revitalização. Os moradores é que terão de se adaptar, instalar janelas anti-ruído”
Claro, um projeto. Uma ong seria contratada através de uma transparente licitação; um estudo de viabilidade e planejamento assinado por reconhecidos estudiosos seria entregue em 6 meses; o coquetel de lançamento marcado no centro cultural de uma grande empresa; durante o lançamento, professores universitários teceriam elogios ao projeto ressaltando seu caráter inovador, um coordenador lembraria sua admiração pela coragem do secretário municipal, sem a qual o projeto não seria possível, juntamente com os canapés e taças de vinho, impressos seriam distribuídos aos convidados; a assessoria de impressa se encarregaria de conseguir uma página nos jornais de maior circulação; a agência de marketing contratada bolaria um selo de responsabilidade social; as empresas envolvidas recolheriam o lucro de sua iniciativa socialmente responsável; poucos semestres depois seriam apresentados os resultados do projeto ao BNDES, BID, Prefeitura e demais financiadores; a parcela final do contrato paga às ongs e consultores, e, então, o projeto encerrado.
Para Andrea Matarazzo, deveria ter sido assim. Não foi. Uma cidade cheia de desempregados e lixo reciclável nas ruas; os primeiros cansados e desesperados metem a mão na massa e colocam tudo o que uma carroça puxada por eles mesmos pode comportar e vendem o material por poucos reais a atravessadores. As famílias conseguem se manter vivas.
Outros trabalhadores aderem a profissão, outras famílias sobrevivem. Em meio ao carnaval, ano novo ou qualquer festa em que latas de alumínio sejam descartadas, lá estão famílias com sacos nas costas. O país de torna um dos maiores recicladores do mundo, sem qualquer incentivo ou reconhecimento do Estado, seu protetor.
Suas carroças são movidas a arroz e feijão, construídas com um eixo, dois pneus, sucata, um par de chinelos e músculos, mais nada. Recebem buzinadas e gritos vindos de carros com ar-condicionado movidos por motor à combustão.
Aprenderam a lidar com esse preconceito e intolerância. Porém, quando um governante declara em jornais que trabalhadores autônomos (responsáveis pela coleta seletiva que a prefeitura não faz) são um problema, quando resolve tornar os xingamentos e buzinadas política pública oficial e decreta a “ilegalidade” dos trabalhadores, apreendendo carroças e os insultando passa-se a fronteira do preconceito e caminha-se para a política exterminadora, que cassa o direito universal ao trabalho, à sobrevivência e à manutenção ambiental da cidade.
A idéia de enquadrar e engessar idéias autônomas, independentes e criativas que deram muito certo é história antiga, agora parece ser a vez dos catadores de recicláveis. Projetos onde “a meta é legalizar os catadores” estão por aí
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Defensor público acusa prefeitura de promover “higienização social”, 01/2007
Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis
Coopamare
Technorati tags: gentrificacao, andreamatarazzo, saopaulo, catador, lixo, gentrification.




Ótima critica!
O fosso social na cidade de SP tá cada dia mais evidente (pelo menos pra quem consegue relativizar as notícias da “grande” mídia). O debate sobre a “operação” da PM durante o show dos Racionais que se trevou no youtube é alarmante. Muitas criticas rasas, e até rasteiras, não conseguem ir além das imagens exibidas pela TV. É como se a situação fosse simples: falaram mal da policia, algumas pessoas se comportaram mal subindo em arvores (!) e bancas de jornal, então, gás de pimenta, cassetete e bala de borracha pra todo lado.
Sem se falar nesse tipo de discurso higienista. Querem empurrar o problema social pra baixo do tapete. Pra ter emprego precisa de educação. Pra ter educação precisa ter escola ( e de qualidade). Não tem educação, como vai ter emprego? Não tem emprego, vai fazer o que? Câmara de gás? O clima tá (cada dia mais) tenso…
nóis
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