Archive for Fevereiro, 2007

Invadindo bem público com bem privado

Das primeiras cidades às atuais regiões metropolitanas e conglomerados urbanos muita coisa mudou. A cidade era, se tivessemos a que resumir numa expressão, aquele lugar cheio de gente. Hoje a cidade é basicamente um lugar cheio de automóveis.

O automóvel é a personagem mais importante das cidades. Em São Paulo podemos dizer que os carros votam e podem decidir uma eleição. Existem mais motoristas que cidadãos por aqui, sem dúvida.

Estacionar um objeto de aço movido a combustão, comprado em 36 vezes no super-feirão por 57 salários mínimos, no espaço mantido com dinheiro público só pode ter se tornado natural numa sociedade na qual o carro tem poderes de super-cidadão.

rita sesc carmo
Direitos Reservados: Rita, São Paulo, 2006. Realizado para Mostra SESC de Arte. Pintura em parade 8 x 2m, em Base-V

Escapamentos cheiram bem, moradores de rua, mal
Na cidade dos automóveis dormir no espaço público dá em borrachada e bicudas no estômago por parte dos monopolizadores do uso da violência, chacinas na calada da noite por parte dos utilizadores da violência que contam com a conivência dos monopolizadores; já se seu patrimônio for furtado no espaço mantido por todos cidadãos, os monopolizadores do uso da violência farão um boletim de ocorrência e sua propriedade será procura na parte da cidade chamada de periferia.

Pagar um estacionamento nas grandes cidades é entendido como o preço pela segurança de não ver sua propriedade na mão de um usurpador de bens privados. É preciso pagar para fugir da cidade que se utiliza. Usar e abusar, invadir o espaço de todos e deixar o rastro de poluição para trás, é a lei. A idéia de que um bem privado deve pagar para ocupar um espaço público ou então pagar um serviço privado de estacionamento, do mesmo modo que se paga um armazém para estocar produtos, não passa pela cabeça da maioria dos motoristas.

vaga verde
Vaga Verde em Belo Horizonte, parte da mobilização da Jornada “Na Cidade Sem Meu Carro”, em Rua Viva

Technorati tags: carro, transporte


Add comment Fevereiro 2, 2007

Prefeitura de SP disponibiliza geoinformações

Infolocal

Uma das maiores dificuldades dos pesquisadores é encontrar dados regionais das cidades estudadas. Em São Paulo são muitos dados a disposição, mas dados gerais (não regionais). Numa cidade com condições de vida gritantemente diferentes, trabalhar com dados do munícipio como um todo é dar com os burros n’água. Dados sobre o abastecimento de água encanada, por exemplo, são muito modificados com a região de Parelheiros e Marsilac no bolo. É aquela história da média: eu como dois frangos por dia, meu vizinho nenhum, na média a população come um frango e, portanto, vive bem alimentada.

A cidade quase 11 milhões de habitantes já foi fatiada de diversas formas. Desde 2000 são 96 distritos. A análise distrital permite sacar vulnerabilidades, concentrações e, claro, planejar políticas públicas focadas.

O IBGE fornece uma enorme quantidade de dados através da ferramenta Cidades@, mas não os fornece segundo distritos municipais.

A Fundação SEADE era a única fonte confiável de dados distritais a disposição, seus pesquisadores elaboraram diversos estudos, como o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social; e seus dados são manipulados por diversos núcleos, como NEV e CEBRAP, este formulador do chamado Mapa da Exclusão de São Paulo. O SEADE também tem uma ferramenta que permite referenciar em mapa os diversos dados selecionados. A questão é que o sistema fica quase limitado a pesquisadores, pois sua linguagem é, digamos, demográfica e cheia de recortes pela situação x, y e z (são eles que interessam, afinal)

Vi no W2BR sobre o sistema implantado pela Prefeitura de São Paulo. O Infoloc@l utiliza a base cartográfica do ignorante Google Maps, que permite a visualização de fotos de satélite e de ruas.

A ferramenta é muito bonita, dinâmica, bem feita e, principalmente, fácil de usar. O que mais me impressionou foi a possibilidade de clicar sobre o dado adicionado ao mapa e verificar facilmente endereço, telefone e outros.

Os dados disponíveis para referência em mapa são bem poucos. Quase nada. O que não parece um problema, pois trata-se de uma versão de teste, portanto, imaginamos que ele ainda será bem abastecido. O problema principal do Infoloc@l na parte cartográfica são os dados com que é abastecido. Eu não encontrei a referência das fontes, ou seja, quem coletou as informações e garante sua veracidade; não encontrei a metodologia de coleta, ou seja, como foram coletadas; e não encontrei quando foram coletadas. São informações básicas para se utilizar um mapa, se não posso verificar se concordo com o modo como as infos foram coletadas, não posso utilizadas em meu trabalho.

Segundo a prefeitura,

Todas as informações do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estão acessíveis pelo Infoloc@l, que também conta com um sistema de busca por palavra-chave. A proposta é facilitar o acesso a informações cadastrais, estimulando o conhecimento da cidade por meio de estatísticas georeferenciadas.

O que não se sabe é quais são as informações do IBGE e quais não são. Parte das informações certamente são da própria prefeitura. Cada Secretaria repassa suas infomações, as infos sobre escolas são fornecidas pela Secretaria de Educação e assim por diante. Aí que pode morar o problema, você pode estar olhando para um mapa com dados de 2000 (equipamentos de cultura, por exemplo) e outro de 1990 (escolas, por exemplo) achando que pode compará-los. Além disso, é bom lembrar dos casos em que divisões públicas-politizadas, como Secretarias, foram acusadas de categorização errada (vide dados sobre mortes violentas), desatualização, ocultação de dados politicamente desvantajosos e a inflação de dados vantajosos.

Como o público-alvo não é o pesquisador, não é preciso detalhamentos mil, mas o acesso claro à fonte é o mínimo. Diferentemente do que acontece nos mapas a parte de tabelas mostra a fonte, geralmente “SEMPLA/DIPRO”. A questão é que a SEMPLA na imensa maioria dos casos, gerencia dados, não os coleta. Sobre a usabilidade, na hora da montagem da tabela, não tem muito jeito, tem que saber mais o menos o que é uma variável na coluna, categoria, seguimento…

Segundo a prefeitura“, as bases de dados serão atualizadas periodicamente neste Sistema de Informações Geográficas (SIG), criado em 2002″.

Abaixo, podemos observar a forte concentração de equipamentos de cultura na região do centro expandido da cidade. A região da cidade mais adensada é a Leste e, como vemos, uma das mais carentes desse tipo de equipamento. A região Leste, porém, em relação a parte pobre da região Sul, tem mais facilidade de acessar estes equipamentos, por conta de outro equipamento fundamental, o metrô. Um cuidado aqui, pode-se ver que a maioria dos equipamentos são bibliotecas infanto-juvenis, seu acervo é muito pequeno e funcionamento é desconhecido, portanto… sempre deve-se considerar informações “qualitativas” na leitura de dados “quantitativos”.

Equipamentos de cultura e estações do metrô em São Paulo

Relacionados:

O que é Sistema de Informações Georeferenciadas - SIG
Estatísticas gerais do munícipio de São Paulo
Secrataria de Municipal de Planejamento de São Paulo - SEMPLA

Technorati tags: geoprocessamento, infolocal


Add comment Fevereiro 1, 2007

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