A falsidade das edições luxuosas
Dezembro 15, 2006
Comprando um álbum de figurinhas completo na megastore
A atual enxurrada de “edições de luxo” de materiais anteriormente mal publicados não é para o leitor, como pode parecer, um benefício. É antes de tudo um esbulho.
Não tão falsas quanto as “edições de colecionador” em que a constatação da falsidade vem estampada na própria propaganda - uma vez que colecionador algum concede valor a algo não original e não raro -, as “edições de luxo” contam com valores buscados por fetichistas e alguns colecionadores. As edições são de fato de luxo: capa, papel, impressão… Afora estes itens encarecedores, nada mais. São somente luxo. Atributos que agregam ao conteúdo de fato, como comentários, extras, prefácios e outros, nada! O colecionador antes de ser um fetichista é um estudioso. Desta forma, as edições de luxo serviriam àqueles colecionadores que estudam menos e privilegiam atributos fetichistas, mas nem ao menos é este o caso.
Colecionador coleciona. No caso dos quadrinhos, itens em série. Comprar pressupõe dinheiro; colecionar, muito dinheiro; por isso o colecionador analisa muito o custo-benefício de cada item, pode pagar 1000 reais por algo que interessa a sua coleção, mas não dá um real a algo que vale 30, mas não interessa a sua coleção. O que interessa ao colecionador é a consistência de sua coleção. O colecionador deseja diversos itens, mas não compra apenas de acordo com seu desejo, quem compra de acordo com o desejo imediato, que é aleatório (se não fossem pautados pela mídia, lojas, tendências) é o leigo.
A editora Conrad assumiu o controle das edições nacionais de quadrinhos adultos, assim como a Cia. das Letras, dos títulos de literatura contemporânea e a Trama, da discografia “alternativa”. A Conrad, ligada nos lançamentos internacionais e nas tendências juvenis, solta uma quantidade enorme de coletâneas luxuosas voltadas a um público de meia idade que curte “temas jovens”, que tem dinheiro para comprar material bem produzido e preguiça de sobra para não ir atrás das publicações empoeiradas. Estas empresas têm sucesso não pelo investimento em títulos e traduções como propagam, contam, principalmente, com a busca dos consumidores por praticidade, material sem grande profundidade, estética atual e, principalmente, a sensação de adquirir algo completo de uma só vez - resolver o problema rapidamente, afinal para ir atrás de todos os LPs de fulano, se acabaram de lançar um box completo, novinho, que vem com uma camiseta encartada, sem as capas e encartes originais e que custam um absurdo?!
Lucros maiores, distribuição facilitada fazem com que as coletâneas luxuosas deixem de ser mais uma opção no mercado e passem a ser a única, já que as empresas deixam as edições periódicas de lado. Títulos diversos que começaram a ser lançados em série ganham sua edição coletânea-luxo já na quarta ou quinta série! Os quadrinhos “underground” vêm em edições requintadas… é contra senso além do suportável.
Não há graça alguma em comprar um livro capa dura com as dez edições de determinado título. O colecionador prefere comprar mensalmente suas edições seriadas - com dez capas moles e não uma dura - e não ter um belo livro na estante, mas ter feito da estória do quadrinho parte de alguns meses de sua breve vida.
Bom, dou um desconto, exibir a coleção faz parte, mas não há orgulho algum em exibir um álbum de figurinhas completo se você já o comprou completo pronto numa megastore.
Meus pesâmes a todas pequenas lojas fechadas em São Paulo que contribuíram para a formação de um mercado de leitores (Muito Prazer Quadrinhos, Livraria Belas Artes, Livraria Duas Cidades e outras dezenas).
Technorati Tags: quandrinhos, livros, hq, edição+luxo,



Leave a Comment
Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
Trackback this post | Subscribe to the comments via RSS Feed